A penetração da internet entre os brasileiros atingiu novo recorde em 2025. Segundo dados da pesquisa TIC Domicílios lançada em dezembro, 86% dos domicílios dispõem de conexão, o maior índice desde o início da série em 2015, quando apenas 51% das famílias tinham acesso.
Este resultado representa 157 milhões de usuários diretos, ampliando-se para 163 milhões quando considerado o acesso via aplicativos. Apesar deste crescimento expressivo, a desigualdade permanece como característica estruturante do fenômeno, reproduzindo as disparidades socioeconômicas brasileiras.
O avanço mais expressivo ocorreu justamente entre as populações historicamente excluídas. As classes D e E experimentaram uma transformação dramática: de 15% em 2015 para 73% em 2025, um incremento de 58 pontos percentuais em uma década.
Somente nos últimos 12 meses, o acesso entre os mais pobres cresceu 5 pontos percentuais. Mesmo assim, ainda permanecem desconectados aproximadamente 27% dos domicílios pertencentes a essas faixas de renda, representando mais de 25 milhões de brasileiros.
Nas classes de maior renda, a universalização é praticamente completa. A classe A atingiu 100% de acesso em 2025, enquanto a classe B mantém 95%.
A classe C apresenta 86% de cobertura, revelando um ponto de inflexão onde as disparidades ganham relevância. Entre as classes D e E, mesmo com o crescimento mencionado, o acesso de 73% ainda deixa um quarto dessa população fora do universo digital.
A diferença entre os extremos da pirâmide social se reduziu significativamente. Em 2015, a lacuna entre a classe A (99%) e as classes D e E (15%) era de 84 pontos percentuais.
Dez anos depois, essa diferença caiu para 27 pontos, indicando uma diminuição da disparidade. Porém, essa redução numérica mascara desigualdades mais profundas relacionadas à qualidade do acesso e ao tipo de conexão utilizado.
A natureza da conexão varia drasticamente conforme o nível de renda. Nas classes A e B, 95% utilizam fibra óptica ou cabo, tecnologias de banda larga de qualidade. Na classe C, essa proporção cai para 75%, e nas classes D e E, apenas 60% dispõem dessa infraestrutura.
Em compensação, houve aumento de 11 pontos percentuais no acesso por fibra ou cabo entre os mais pobres no período de um ano, sinalizando investimentos nesse segmento.
A dependência de aparelhos móveis para acesso revela-se como fator crítico de vulnerabilidade. Enquanto apenas 5% dos usuários da classe A acessam exclusivamente pela rede móvel, esse percentual sobe para 67% na classe C e atinge 87% nas classes D e E.
Essa concentração no acesso celular expõe a população mais pobre a constrangimentos significativos.
Dados recentes da Anatel e do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) evidenciam o peso dessa dependência. Pessoas com renda até um salário mínimo experimentaram, em 35% dos casos, desconexões de sete dias ou mais durante 30 dias nos últimos meses.
Entre aqueles que recebem entre um e três salários, o índice foi ligeiramente superior, chegando a 35,6%. Para períodos mais prolongados, a realidade é ainda mais severa: 11,6% dos mais pobres ficaram sem internet por mais de 15 dias, proporção seis vezes superior à registrada entre indivíduos de renda mais elevada (2,2%).
As consequências dessa desconexão periódica são estruturantes. Quando sem franquia de dados no celular e sem acesso ao Wi-Fi, 63,8% dos brasileiros deixaram de utilizar serviços bancários ou financeiros; 56,5% não acessaram plataformas de governo; 55,2% não conseguiram estudar; e 52,3% deixaram de acessar serviços de saúde.
Esses números indicam que a exclusão digital não é mera privação de entretenimento, mas obstáculo concreto à participação na vida econômica, administrativa, educacional e sanitária.
Outros fatores estruturam essa desigualdade. A escolaridade funciona como variável importante: 98% dos brasileiros com ensino superior usam internet, ante 91% daqueles com ensino médio e 74% com ensino fundamental.
A idade também marca divisões significativas: todas as faixas etárias entre 10 e 44 anos ultrapassam 90% de cobertura, mas entre maiores de 45 anos o acesso cai para 86%, chegando a apenas 54% entre maiores de 60 anos.
As disparidades regionais complementam esse quadro. Enquanto o acesso geral em áreas urbanas é consolidado, a zona rural apresenta 77% de cobertura, percentual menor que a média nacional.
Entre regiões, o padrão se reproduz: o Nordeste registra 48% de uso da plataforma gov.br contra 94% na classe A e 60% de média nacional, refletindo tanto disparidades de renda quanto limitações de infraestrutura.
A questão da qualidade da conectividade agrava ainda mais o cenário. Apenas 22% dos brasileiros dispõem de condições satisfatórias de conectividade. Quando desagregado por classe, a disparidade é brutal: 73% das pessoas de classe A têm boa qualidade de acesso, enquanto nas classes D e E apenas 3% se encontram nessa situação.
Entre mulheres e homens, os números são 16% e 28%, respectivamente. No recorte regional, o Sul apresenta 33% com boa conectividade contra apenas 11% no Nordeste.
A qualidade insuficiente manifesta-se também no problema dos pacotes de dados limitados. Dos brasileiros que utilizam conexão móvel, 33% reportam queda na velocidade após esgotar o pacote contratado, chegando a 38% entre as classes D e E.
Adicionalmente, 30% precisam contratar pacotes adicionais para manter a conectividade, criando ciclos de gasto crescente para populações com renda reduzida.
A adoção de inteligência artificial generativa expõe outra faceta dessa desigualdade. Enquanto 69% dos indivíduos da classe A já usam IA generativa, apenas 16% das classes D e E o fazem.
Entre níveis de escolaridade, 59% dos que completaram ensino superior usam tais ferramentas contra 17% dos que pararam no ensino fundamental. Essa diferença sugere que a próxima onda de transformação digital tende a aprofundar ainda mais as desigualdades.
Os serviços de governo eletrônico, embora em expansão, reproduzem essas disparidades. A plataforma gov.br é acessada por 94% da classe A, 79% da classe B, 56% da classe C e apenas 35% das classes D e E.
Regionalmente, a média varia entre 57% e 60%, mas no Nordeste cai para 48%, indicando que a informatização do Estado não alcança igualmente todos os segmentos.
Entre a população negra e pobre, as exclusões se acumulam. De 29 milhões de não usuários de internet no Brasil, 17 milhões são negros e 16 milhões pertencem às classes de menor renda.
Essa sobreposição de desvantagens estrutura camadas de vulnerabilidade que não se resumem à presença ou ausência de acesso, mas à qualidade, velocidade e continuidade desse acesso.
Iniciativas públicas tentam responder a esse quadro. O programa de conectividade de escolas públicas já alcança 60% delas, com expansão planejada via satélite para 4,1 mil escolas em áreas remotas.
Programas como o Wi-Fi Brasil (Gesac) e as Cidades Digitais buscam ampliar o acesso em comunidades vulneráveis. Um projeto de lei em tramitação na Câmara dos Deputados pretende criar política nacional de conectividade sustentável para comunidades remotas, priorizando o uso de recursos do Fust.
A infraestrutura permanece como desafio central. Aproximadamente 20 milhões de brasileiros ainda vivem em áreas sem acesso à internet. O Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel) desenvolve tecnologias inovadoras, como a caixa de conectividade móvel privativa que condensa operadora de rede em equipamento compacto, potencialmente capaz de levar internet a comunidades isoladas com alcance de 5 a 100 quilômetros conforme a tecnologia.
Propostas futuras incluem o uso de TV White Space, aproveitando faixas ociosas de canais para transmitir internet compartilhada em áreas rurais com custos reduzidos.
Os obstáculos, contudo, vão além da tecnologia. A carga tributária elevada impacta diretamente o custo dos planos de internet, especialmente na modalidade móvel.
A ausência de competição entre provedores em muitas regiões permite práticas de precificação que afastam consumidores de baixa renda. A falta de coordenação entre políticas públicas e a descontinuidade de programas entre gestões comprometem a efetividade das iniciativas.
O crescimento de 35 pontos percentuais de acesso entre as classes D e E em uma década representa conquista indiscutível.
Contudo, a dimensão dessa vitória se redimensiona quando consideradas as camadas de desigualdade que permanecem: a qualidade inferior da conexão, a dependência de dispositivos móveis com pacotes limitados, a impossibilidade de acessar serviços essenciais por falta de dados, a incapacidade de aproveitar novas tecnologias como inteligência artificial, a exclusão regional persistente e a vulnerabilidade maior entre populações negras e pobres.
A universalização do acesso físico à internet avança.
A universalização de seu uso significativo e igualitário, capaz de proporcionar as mesmas oportunidades educacionais, econômicas e sociais aos brasileiros de todas as classes e regiões, permanece como horizonte a ser alcançado.

