
A detecção de triptofano no asteroide Bennu marca um avanço significativo na compreensão das origens dos componentes químicos necessários para a vida. O aminoácido foi identificado em amostras coletadas pela missão OSIRIS-REx da Nasa, que capturou 121,6 gramas de material do asteroide em 2020 e retornou à Terra em 2023.
A descoberta, publicada na revista PNAS em 24 de novembro, aumenta o número de aminoácidos formadores de proteínas encontrados em Bennu para 15 dos 20 necessários aos organismos vivos terrestres.
O triptofano distingue-se como um dos aminoácidos mais complexos jamais detectados em um corpo celeste. Pesquisas anteriores com meteoritos e amostras de outros asteroides não haviam registrado sua presença, tornando sua identificação em Bennu particularmente relevante para os estudos de astrobiologia.
José Aponte, astroquímico do Centro Espacial Goddard da Nasa, enfatiza que a descoberta é significativa porque o triptofano pertence à categoria de aminoácidos essenciais, aqueles que o organismo humano não consegue sintetizar naturalmente e devem ser obtidos por meio da alimentação.
A composição química de Bennu reflete o ambiente do Sistema Solar primitivo, datando de aproximadamente 4,5 bilhões de anos. O asteroide forma-se a partir de material originário de supernovas, as explosões de estrelas antigas que ocorreram antes da formação do sistema solar.
Nesse contexto extremo, o calor intenso funcionou como uma forja cósmica, processando os elementos que compõem o asteroide, posteriormente alterados ainda mais pela radiação solar e pelo impacto que gerou Bennu.
Bennu segue uma órbita próxima à Terra, circulando o planeta aproximadamente a cada seis anos. Sua composição, além do triptofano, inclui 14 aminoácidos adicionais formadores de proteínas, as cinco nucleobases que constituem o código genético do DNA e RNA, amônia — composto importante para reações bioquímicas — e diversos minerais.
Essa riqueza de componentes orgânicos, embora se apresente como fragmentos ainda não montados, sugere que os blocos de construção fundamentais da vida podem formar-se naturalmente em asteroides e cometas.
A metodologia de coleta utilizada pela Nasa confere confiabilidade excepcional aos resultados. Ao capturar as amostras diretamente da superfície de Bennu, evitou-se o dano causado pela entrada atmosférica que altera a composição química dos meteoritos ao atravessarem a atmosfera terrestre.
Esse processo transforma Bennu numa autêntica cápsula do tempo, preservando fielmente a composição do Sistema Solar em seus primórdios.
Angel Mojarro, pesquisador de pós-doutorado no Centro Espacial Goddard e primeiro autor do estudo, descreve os componentes encontrados como peças de quebra-cabeça ainda não montadas.
Conforme apontado, a detecção de triptofano expande o alfabeto de aminoácidos reconhecidos como produzidos naturalmente no espaço, expandindo as possibilidades de ingredientes que poderiam ter sido entregues à Terra nos estágios iniciais de sua formação.
As descobertas sustentam a hipótese de que asteroides funcionaram como vetores de entrega para moléculas prebióticas no planeta primitivo. Estudos prévios em amostras do asteroide Ryugu, coletadas pela Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial em 2019, corroboraram esse padrão, identificando aminoácidos similares.
Esse crescente acervo de evidências fornece respaldo à proposição de que os ingredientes essenciais para a vida não originaram-se exclusivamente na Terra, mas foram transportados por corpos celestes que atravessaram o Sistema Solar primitivo.
A identificação do triptofano em Bennu reforça a teoria de que a receita para a vida começou a ser compilada muito antes do surgimento da Terra como centro de complexidade bioquímica.
Essa perspectiva amplia compreensão anterior e fundamenta investigações futuras sobre a panspermia química e o papel dos asteroides na disseminação de moléculas orgânicas pelo Sistema Solar, iluminando potencialmente caminhos para o surgimento da vida não apenas na Terra, mas possivelmente em outros mundos do sistema solar e além.










