Apple Watch vs Samsung Galaxy Watch: estamos viciados em smartwatches?

Apple Watch vs Samsung Galaxy Watch: estamos viciados em smartwatches?

O mercado de smartwatches alcançou proporções impressionantes em 2025, com expectativas de atingir 230 milhões de unidades vendidas globalmente. Cerca de 225 milhões de pessoas utilizam esses dispositivos diariamente em todo o mundo, transformando o que começou como um acessório tecnológico em um objeto praticamente ubíquo, especialmente entre aqueles que já possuem smartphones da mesma marca.

Apple Watch e Samsung Galaxy Watch consolidaram suas posições como líderes de mercado, criando um ecossistema de fidelização que ultrapassa as funcionalidades de um simples relógio inteligente.

O crescimento acelerado desses dispositivos não ocorre por acaso. As fabricantes investiram pesadamente em capacidades de monitoramento de saúde que transcendem o contagem de passos.

Hoje, smartwatches medem pressão arterial, variabilidade da frequência cardíaca, padrões de sono, níveis de oxigenação, e até detectam comportamentos como fibrilação atrial. Essa evolução transformou os aparelhos em ferramentas que prometem uma vigilância constante do corpo e, progressivamente, da mente do usuário.

A dependência tecnológica relacionada a wearables segue um padrão bem documentado em pesquisas científicas. Assim como ocorre com smartphones e redes sociais, a dependência de tecnologia é caracterizada pela inabilidade de controlar o uso do dispositivo mesmo que este gere consequências negativas.

Os smartwatches amplificam esse fenômeno ao integrar notificações constantes, alertas de saúde em tempo real e recursos de gamificação que recompensam comportamentos específicos.

A psicóloga clínica Lindsey Rosman conduziu uma pesquisa sobre o impacto de tecnologias vestíveis em pacientes com doenças cardiovasculares. O estudo revelou que 20% daqueles que utilizaram smartwatches para monitorar a saúde cardíaca apresentaram ansiedade aumentada e tendência a utilizar mais recursos do sistema de saúde.

O padrão observado era peculiar: o usuário via um número preocupante no relógio, ficava ansioso, sua frequência cardíaca aumentava, ele verificava novamente o dispositivo, e a frequência cardíaca subia ainda mais, criando um ciclo autodeterminado de preocupação.

A questão central não reside apenas na quantidade de dados coletados, mas em como esses dados são apresentados e interpretados. Quando indivíduos recebem estatísticas sobre si mesmos que não compreendem completamente, naturalmente desejam saber mais.

Os smartwatches exploram essa curiosidade através de notificações contínuas, relatórios diários e pontuações de energia que avaliam o bem-estar baseado em algoritmos proprietários. Essa abordagem transforma o dispositivo em um avaliador constante da condição física e mental do usuário.

Os aspectos psicológicos envolvidos na adoção de smartwatches revelam uma dinâmica complexa. De um lado, pesquisas indicam que 87% dos usuários de smartwatches adotaram novos comportamentos saudáveis baseados nas informações do dispositivo, com mudanças incluindo aumento da frequência de exercícios (47%), melhora nos hábitos de sono (39%) e ajustes na dieta (28%).

Essas evidências sugerem que o monitoramento pode funcionar como ferramenta motivacional eficaz.

Por outro lado, a vigilância constante carrega riscos significativos. O uso excessivo de dispositivos de monitoramento está associado a transtornos do sono, fadiga ocular, sedentarismo paradoxal (quando o dispositivo não registra uma atividade como válida, o usuário sente que "não contou") e dores musculoesqueléticas, particularmente na região cervical.

Além disso, há evidências de que o uso prolongado correlaciona-se com depressão, ansiedade, redução da autoestima e comportamento impulsivo.

A infraestrutura de recompensa dos smartwatches amplifica essas tendências. Os aplicativos acompanhadores empregam gamificação intensiva, oferecendo desafios diários, rankings de desempenho e recompensas digitais que incentivam engajamento contínuo.

Pesquisas indicam que essa estratégia funciona: usuários que participam de desafios em grupo têm 50% mais chances de atingir suas metas de condicionamento físico. Entretanto, essa eficácia na motivação comportamental também criar dependência psicológica, particularmente entre aqueles predispostos a comportamentos compulsivos.

O fator "aprisionamento" nas plataformas aumenta a percepção de vício. Apple Watch não funciona com dispositivos Android, e Galaxy Watch apresenta limitações com iPhones.

Essa incompatibilidade não é técnica, mas estratégica, conforme reconhecido em processos judiciais onde executivos da Apple confirmaram que o relógio ajuda a prevenir que clientes troquem de ecossistema. Assim, o usuário que investe em um smartwatch compromete-se não apenas com um dispositivo, mas com toda uma arquitetura de serviços interconectados.

As inovações mais recentes amplificam essas preocupações. Smartwatches agora incluem monitoramento de estresse e rastreamento de emoções, utilizando variabilidade da frequência cardíaca para inferir estados emocionais.

Enquanto a tecnologia pode oferecer insights valiosos sobre bem-estar mental, ela também expõe os usuários a um escrutínio constante de suas condições psicológicas, potencialmente intensificando a ansiedade ao invés de aliviá-la.

O contexto neurocientífico da dependência também merece atenção. Assim como ocorre com outras formas de dependência comportamental, especula-se que a recorrência de comportamentos relacionados ao uso de smartwatches pode levar a sensibilização do circuito de recompensa cerebral.

Em outras palavras, o usuário precisará de estímulos cada vez mais intensos para experimentar o mesmo nível de satisfação ou engajamento.

A questão de fundo não é se smartwatches são ferramentas úteis ou prejudiciais de forma absoluta. Essas categorias binárias ignoram a complexidade da relação entre tecnologia e comportamento humano.

A questão mais pertinente diz respeito ao controle: o usuário controla o dispositivo, ou o dispositivo controla o usuário através de mecanismos de notificação, gamificação e feedback contínuo?

Para aqueles que reconhecem sinais de dependência — como ansiedade ao tentar se desconectar, verificação compulsiva do dispositivo, preocupação excessiva com métricas de saúde ou deterioração da qualidade de vida — estratégias simples podem ajudar.

Estabelecer horários sem o uso do dispositivo, especialmente antes de dormir, desativar notificações não essenciais e priorizar atividades offline são abordagens reconhecidas por especialistas. Alguns usuários encontram benefício em períodos de desintoxicação digital completa, com duração de pelo menos 24 horas, embora períodos mais longos possam produzir melhores resultados.

A proliferação de smartwatches reflete uma transformação mais ampla na relação entre corpo, tecnologia e autoconsciência. Esses dispositivos prometem conhecimento sobre si mesmo, mas frequentemente entregam vigilância que pode comprometer bem-estar.

Reconhecer essa dinâmica e estabelecer limites claros representa o primeiro passo para garantir que a tecnologia permaneça uma ferramenta ao serviço do usuário, não o contrário.

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Rafael Santos

Rafael Santos é o especialista em desempacotar o mundo dos dispositivos. Com uma paixão por Hardware, montagem de PCs e otimização de Redes, ele oferece análises aprofundadas em Reviews, Conectividade (Internet) e no universo de Games.