O Bitcoin iniciou 2026 cotado em torno de US$ 87.700, operando ligeiramente acima dos níveis de fechamento de 2025 após encerrar o ano anterior com o seu primeiro resultado anual negativo desde a crise de 2022.
A queda acumulada no ano foi de aproximadamente 6,4%, frustrando previsões que apontavam para patamares entre US$ 180 mil e US$ 200 mil até o final de 2025.
O desempenho ambíguo da maior criptomoeda do mundo reflete uma transformação estrutural em sua dinâmica de mercado. Enquanto a criptomoeda renovou a sua máxima histórica ao ultrapassar os US$ 126 mil em outubro, não conseguiu sustentar o movimento de alta e sofreu uma queda de mais de 30% a partir daquele pico.
Este período de volatilidade marca o terceiro ano de prejuízo em uma década, interrompendo uma sequência de otimismo que dominou o mercado durante o início de 2025.
O Ano Atípico de 2025
O ano de 2025 rompe com o ciclo tradicional de quatro anos que historicamente molda o comportamento do Bitcoin.
De acordo com analistas, o padrão esperado era três anos de alta seguidos de um ano de queda apenas em 2026, contudo a realização de lucros foi antecipada, interrompendo o rali bem antes do esperado.
A dinâmica do ano começou promissora. Em janeiro, o Bitcoin iniciou cotado a US$ 93 mil e rapidamente avançou para os US$ 109 mil, impulsionado pelo otimismo em torno dos Exchange-Traded Funds (ETFs) de Bitcoin à vista, que foram aprovados nos Estados Unidos em janeiro de 2024.
Até meados de 2025, esses fundos acumulavam mais de US$ 50 bilhões em entradas líquidas, marcando uma fase de institucionalização progressiva da criptomoeda.
Em maio, o Bitcoin superou os US$ 111 mil pela primeira vez em sua história. O mês de outubro representou o auge dessa sequência, quando a criptomoeda atingiu o seu recorde histórico de US$ 126.073.
Porém, apenas seis dias depois, um flash crash provocou uma queda de aproximadamente 10% em poucos minutos, gerando mais de US$ 19 bilhões em liquidações em 24 horas e eliminando cerca de US$ 500 bilhões da capitalização total do mercado cripto.
Fatores por Trás da Volatilidade
A volatilidade extrema de 2025 resultou da convergência de três elementos centrais: regulação incompleta, mudanças no fluxo de investidores institucionais e ambiente macroeconômico desafiador.
No aspecto regulatório, a aprovação do Genius Act forneceu um marco importante para o desenvolvimento do setor nos Estados Unidos. Contudo, a Market Clarity Act, considerada fundamental para impulsionar especialmente o setor de finanças descentralizadas, não foi aprovada e permanece como agenda para 2026.
Além disso, Trump assinou lei em julho criando regime regulatório para stablecoins, o que fortaleceu a confiança institucional no setor.
O fluxo de investidores institucionais, que havia impulsionado as altas do início de 2025, perdeu força no segundo semestre. Investidores de longo prazo, grandes carteiras corporativas e ETFs reduziram discretamente seus aportes, removendo o suporte de liquidez que havia sustentado a valorização.
Simultaneamente, detentores antigos de Bitcoin realizaram vendas estratégicas para reduzir exposição, aumentando a pressão de oferta no mercado.
A política monetária norte-americana exerceu pressão adicional. O Federal Reserve realizou apenas três cortes de juros durante 2025, um ritmo inferior às projeções feitas no início do ano.
Embora suficientes para afastar cenários mais pessimistas, os cortes não geraram o nível de liquidez necessário para sustentar um novo ciclo de alta de alta intensidade. Em dezembro, o Fed cortou a taxa em 0,25 ponto percentual para o intervalo de 3,5% a 3,75%.
A correlação crescente entre Bitcoin e ações de tecnologia de alto crescimento amplificou a volatilidade. Temores relacionados a possíveis excesso de valorização de empresas de inteligência artificial e as flutuações nos mercados de ações tech repercutiram diretamente nos preços das criptomoedas.
A volatilidade histórica de 90 dias do Bitcoin ao final de 2025 girava entre 35% e 40%, aproximando-se dos níveis de papéis como Nvidia e Tesla.
Uma Mudança Estrutural: Do Cíclico para o Macroeconômico
A análise do desempenho de 2025 revela uma transformação significativa na forma como o Bitcoin se comporta nos mercados.
Para gestoras como a 21Shares, o ciclo tradicional de quatro anos ancorado nos eventos de halving—processo no qual a recompensa pela mineração é reduzida pela metade—perdeu força como principal motor de preço.
O halving de abril de 2024 reduziu a emissão diária de Bitcoin de 900 para 450 unidades, criando um choque de oferta que historicamente impulsiona ciclos de alta. No entanto, essa dinâmica apresentou um impacto menor do que em ciclos anteriores.
A emissão anual de Bitcoin agora fica abaixo de 1%, inferior à inflação do ouro, sugerindo que o ativo transitou de um instrumento cíclico para um ativo determinado por fatores macroeconômicos mais amplos.
Esse deslocamento reflete a crescente integração do Bitcoin aos mercados financeiros tradicionais. ETFs, corporações e até entes soberanos absorveram em 2025 mais de seis vezes o volume total de bitcoins minerados no período.
Esse capital institucional tende a ser mais paciente e menos especulativo, o que contribui para uma compressão da volatilidade e quedas menos profundas. Desde 2024, os recuos a partir das máximas históricas não superaram 30%, bem abaixo dos 60% ou mais observados em ciclos anteriores.
Perspectivas para 2026
Apesar do encerramento negativo de 2025, analistas mantêm perspectivas otimistas para 2026, ainda que com ressalvas quanto à volatilidade.
Especialistas indicam que o Bitcoin pode retomar fôlego, impulsionado por juros mais baixos nos Estados Unidos, maior liquidez no mercado e adoção institucional continuada.
Projeções compiladas apontam para diferentes cenários. Analistas do Standard Chartered e da Bernstein projetam preços em torno de US$ 150 mil até o final de 2026.
Em cenários mais otimistas, o Bitcoin poderia testar a região dos US$ 200 mil a US$ 220 mil, impulsionado pela entrada de capital institucional e escassez crescente pós-halving. Já em projeções mais conservadoras, a média fica entre US$ 140 mil e US$ 160 mil.
O ambiente regulatório segue como fator crítico. Investidores institucionais demonstram maior confiança em ativos com marcos regulatórios claros e previsíveis.
A aprovação da Market Clarity Act em 2026 poderia servir como catalisador para nova onda de investimentos institucionais.
As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos em 2026 e o fim do mandato de Jerome Powell como presidente do Federal Reserve introduzem incertezas adicionais.
A indicação de um novo chair para o Fed no início de 2026 e a renovação do mandato de Trump criarão dinâmicas políticas que afetarão as políticas monetárias e regulatórias para criptomoedas.
Contexto Para Investidores Brasileiros
Para o investidor brasileiro, o Bitcoin oferece potencial como ativo descorrelacionado em uma carteira, porém com considerações específicas do cenário local.
As preocupações relacionadas ao cenário fiscal doméstico e possível fortalecimento do dólar afetam especialmente quem possui exposição em bitcoins indexados ao dólar.
No início de 2026, com o Bitcoin cotado a aproximadamente R$ 480 mil, a criptomoeda registra queda de cerca de 15,8% em relação aos patamares do início de 2025, quando era negociado a R$ 570 mil.
Contudo, o ativo mantém ganhos expressivos se considerado um horizonte de médio a longo prazo, com valorização de 121% comparado ao nível de janeiro de 2024.
A volatilidade permanece como característica inerente. O período eleitoral brasileiro em 2026 tende a amplificar essa volatilidade, criando dinâmicas complexas entre a volatilidade doméstica e a do Bitcoin.
Investidores devem considerar essa sobreposição de riscos ao estruturar suas posições em criptomoedas.
O Bitcoin em 2026 não apresenta o perfil explosivo e especulativo de ciclos anteriores. Em vez disso, o ativo evoluiu para um instrumento mais institucionalizado e correlacionado com dinâmicas macroeconômicas globais. Essa maturação reduz o potencial para movimentos especulativos extremos, mas também oferece maior estabilidade de longo prazo.
O desempenho do início de 2026, oscilando em torno de US$ 87.700, reflete um mercado mais equilibrado, onde fundamentos institucionais e políticas monetárias exercem papel mais preponderante que a euforia especulativa que marcou períodos anteriores.

