As filas nos caixas de supermercados representam um dos principais pontos de atrito na experiência de compra dos consumidores brasileiros. Enquanto o público navega pelos corredores e seleciona seus produtos, a perspectiva de enfrentar uma espera ao final da jornada desestimula compras rápidas e impulsivas.
Essa frustração, amplamente documentada no comportamento do consumidor, motivou investimentos significativos em tecnologias que prometem eliminar completamente essa barreira—e algumas delas já estão operacionais em território nacional.
O fenômeno não é exclusivamente brasileiro. Mundialmente, varejistas dedicam recursos substanciais para reimaginar o checkout. A Amazon Go, loja de conveniência automatizada lançada pela gigante de tecnologia em 2016, consolidou o conceito de "cashierless stores"—estabelecimentos sem caixa humano. O sistema utiliza sensores distribuídos nas prateleiras, câmeras inteligentes posicionadas no teto e inteligência artificial para rastrear cada produto retirado pelos clientes.
O pagamento ocorre de forma automática, debitado da conta vinculada ao aplicativo, sem necessidade de qualquer interação em ponto de venda tradicional. Apesar do avanço tecnológico, a Amazon posteriormente reformulou sua estratégia, reconhecendo que a implementação em larga escala enfrentava desafios operacionais e de aceitação pública.
No Brasil, contudo, a trajetória segue caminho diferente. O mercado doméstico começou adotando abordagens menos radicais, mas igualmente eficazes: o autoatendimento convencional, conhecido como self-checkout, ganhou tração extraordinária.
Segundo levantamento da Associação Paulista de Supermercados (APAS) realizado em 2024, sete em cada dez brasileiros preferem concluir suas compras por meio de autoatendimento em vez de enfrentar caixas tradicionais. Esse dado revela não apenas uma preferência marginal, mas uma mudança estrutural nas expectativas do consumidor moderno.
O crescimento do self-checkout no varejo brasileiro acelerou-se significativamente nos últimos anos. Em 2023, aproximadamente 5 mil lojas no país ofereciam essa opção; em 2025, o número ultrapassou 11 mil unidades—um aumento superior a 140%. Grandes redes como Assaí, uma das maiores operadoras de atacarejo, iniciou suas operações com self-checkout no final de 2022 em duas lojas piloto paulistas.
A empresa estabeleceu metas ambiciosas: tendo 20 máquinas em operação e presente em 20 lojas em 2024, o objetivo era quadruplicar o número de unidades equipadas para 80 estabelecimentos até 2025. Fornecedores como Perto e Laurenti emergiram como players relevantes, enquanto empresas como a C&A expandiram sua presença de autoatendimento de 31 lojas para uma meta de mais de 300 unidades.
O self-checkout convencional funciona mediante um processo relativamente simples: o cliente aproxima-se de um totem equipado com leitor de código de barras, escaneia manualmente seus produtos, deposita-os em um local designado, realiza o pagamento por cartão ou dispositivo móvel e retira sua compra.
Essa solução reduz o tempo médio de atendimento em até 50% comparado a caixas tradicionais, segundo estudos citados pela Kiosk Marketplace e NielsenIQ. Para operadores, o retorno sobre investimento (ROI) materializa-se em 6 a 12 meses, particularmente em lojas com alto volume de transações.youtube
Além do autoatendimento estacionário, outra categoria de inovação ganhou destaque no mercado brasileiro: os carrinhos inteligentes. O Enxuto, supermercado com seis unidades no interior paulista, lançou em 2022 o primeiro smart cart da América Latina—resultado de parceria com a empresa de tecnologia Nextop e a Arius Sistemas. O desenvolvimento consumiu quatro anos e meio de pesquisa, com investimento de R$ 8,5 milhões.
O carrinho é equipado com tela touch screen, leitor de código de barras acoplado, balança móvel e máquina de cartão integrada. Cinco câmeras monitoram cada item adicionado ou removido da cesta, oferecendo simultaneamente segurança contra perdas e registro automático de compras. O cliente identifica-se por aplicativo ao iniciar a compra, seleciona seus itens e realiza o pagamento diretamente no carrinho—toda a transação ocorre durante o percurso pela loja, eliminando completamente a necessidade de dirigir-se a um caixa.
O custo unitário de produção de cada carrinho inteligente brasileiro equivale a aproximadamente R$ 120 mil, um investimento significativo que exigiu validação robusta antes de expansão. O Enxuto iniciou operações com oito carrinhos na loja John Boyd em Campinas, representando 2% de sua frota.
Os planos originais contemplavam ampliação progressiva para 10% da frota até final de 2022, com expansão subsequente para unidades em Piracicaba e Limeira. O resultado operacional confirmou as expectativas: estudos posteriores indicaram aumento no ticket médio de compra e aceitação crescente entre clientes após familiarização com a interface.
Paralelamente, uma terceira abordagem ganhou espaço nas operações varejistas brasileiras: o sistema denominado "papa-fila" ou "fiscal remoto". Diferentemente das soluções de checkout completamente autônomas, esse modelo mantém o elemento humano como mediador tecnológico. Um funcionário equipado com dispositivo móvel ou coletor de dados circunda os clientes nas filas, escaneando produtos e gerando uma pré-venda. Após a conclusão do registro, o sistema emite um QR Code ou comprovante que o cliente leva ao caixa para finalizar o pagamento.
Embora pareça menos sofisticado que outras soluções, o papa-fila provou-se extraordinariamente eficaz em reduzir tempos de espera sem exigir investimento tecnológico massivo por parte do varejista. Redes como Market utilizaram sistemas de "fiscal de caixa remoto" desenvolvidos por provedores como Inwave, conseguindo reduzir o tempo médio de atendimento de um a cinco minutos para aproximadamente 40 segundos, com picos chegando a meros 10 segundos dependendo da complexidade da transação.youtube
A aceitação do público brasileiro frente a essas inovações surpreendeu até mesmo analistas conservadores. Pesquisa de 2024 indica que 60,4% dos consumidores brasileiros preferem self-checkout quando comparados com caixas tradicionais, superando as expectativas iniciais.
A preferência intensificou-se particularmente após a pandemia de COVID-19, quando reduzir contato físico tornou-se prioridade explícita. O segmento de autoatendimento global, conforme projeções da Grand View Research e Global Market Insight, deve expandir em torno de 11% a 13,6% ao ano até 2027-2030, atingindo entre US$ 6,5 bilhões e US$ 10,49 bilhões em valor de mercado.
Os benefícios operacionais extrapolam mera conveniência. Sistemas de autoatendimento e carrinhos inteligentes geram dados granulares sobre comportamento de compra em tempo real. Cada item removido das prateleiras, cada movimento dentro da loja, cada oferta aceita ou rejeitada alimenta algoritmos que permitem otimização de layouts, reposição preditiva de estoque e até sugestões personalizadas.
Fornecedores de solução como Minha Quitandinha, operando modelo de lojas autônomas em aproximadamente 300 estabelecimentos, registraram mais de 1,6 milhão de transações gerando receita acumulada superior a R$ 30 milhões através de seu software QPay. O sistema permite conclusão de compras em menos de 19 segundos—tempo que elimina efetivamente a percepção de atrito.
Apesar do otimismo fundado nos dados, desafios persistem. O custo inicial de implementação, particularmente para soluções como carrinhos inteligentes, permanece proibitivo para muitos operadores de menor porte. A educação do consumidor também exige investimento contínuo em campanhas informativas e presença de pessoal de suporte nas lojas para assistência durante os primeiros meses.
Questões de privacidade de dados relacionadas ao rastreamento de movimentos e histórico de compra suscitam preocupações em segmentos de consumidores mais conscientes. Além disso, resistências comportamentais—clientes que simplesmente preferem interação humana—permanecerão relevantes por tempo indeterminado, justificando a coexistência de múltiplos formatos de checkout numa mesma operação.
A Amazon, empresa que originalmente popularizou a ideia de lojas totalmente automatizadas através da tecnologia Just Walk Out, reconheceu essa realidade ao anunciar em 2024 a descontinuação gradual do sistema em lojas Amazon Fresh de maior porte, revertendo para Dash Carts e terminais de self-checkout convencionais.
Embora a Amazon mantenha operações da tecnologia em unidades Amazon Go e tenha licenciado a solução para mais de 200 terceiros—incluindo aeroportos, estádios e universidades—a estratégia geral apontou para modelos híbridos menos radicais.
No Brasil, a tendência caminha em direção similar. As maiores redes varejistas implementam estratégias omnichannel que combinam múltiplas soluções: self-checkout convencional para compras pequenas e médias, carrinhos inteligentes como diferencial e papa-fila para períodos de pico de movimento.
Essa abordagem pragmática reconhece que a tecnologia ideal varia conforme o volume, perfil de cliente, tipo de compra e contexto geográfico de cada operação.
A projeção de crescimento continua robusta. Analistas antecipam que aproximadamente 1,5 milhão de equipamentos de self-checkout estarão em operação globalmente até 2026.
No Brasil especificamente, o movimento rumo à automação do checkout reflete não apenas fidelidade a tendências internacionais, mas resposta genuína a preferências manifestadas pelo consumidor doméstico—um público crescentemente conectado, objetivo em suas jornadas de compra e avesso ao desperdício de tempo em filas.
Enquanto tecnologias mais radicais como lojas completamente autônomas enfrentam desafios de implementação e aceitação, as soluções de autoatendimento intermediárias consolidam-se como padrão. O futuro não será caracterizado por um modelo único, mas por portfólio diversificado de experiências de checkout coexistindo nas mesmas operações varejistas.
Para supermercados e lojas de conveniência, a questão deixou de ser se implementar tais tecnologias, mas como fazê-lo em escala rentável mantendo satisfação de clientes. As evidências geradas pelos testes brasileiros indicam que essa transição, mais do que possível, encontra-se já em processo avançado.

