Crédito com blockchain avança: bancos testam DeFi com Aave e Compound

Crédito com blockchain avança: bancos testam DeFi com Aave e Compound

O mercado de crédito digital baseado em blockchain está em fase de consolidação, com grandes instituições financeiras brasileiras já estruturando operações inspiradas em protocolos descentralizados.

A partir da Blockchain Conference Brasil 2025, realizada em São Paulo no final de novembro, executivos de bancos e fintechs confirmaram que a tecnologia ultrapassou a fase teórica e adentra um período de implementação prática.

A convergência entre bancos tradicionais e modelos de finanças descentralizadas (DeFi) representa uma mudança fundamental nas estruturas de crédito. Segundo especialistas, protocolos como Aave e Compound permitem que instituições tomem empréstimos e repassem crédito ao cliente final com juros e condições significativamente mais vantajosos em comparação aos modelos convencionais.

O potencial dessa tecnologia reside na capacidade de automatizar operações de crédito por meio de contratos inteligentes, reduzindo intermediações e custos operacionais.

O Itaú Unibanco e o Banco BV já realizaram operações estruturadas em ambientes similares aos de protocolos DeFi. De acordo com executivos do mercado, o Itaú utilizou um sistema inspirado no Aave para estruturar uma operação de crédito de R$ 80 milhões, enquanto o Banco BV realizou operação de mesmo valor.

Essas movimentações demonstram que as instituições deixaram de lado a postura de observadores externos e passaram a experimentar efetivamente essas estruturas tecnológicas em suas operações cotidianas.

A trajetória das stablecoins oferece um precedente vitorioso para esse cenário. Executivos destacam que os bancos ignoravam inicialmente o mercado de stablecoins, mas conforme o segmento cresceu e se tornaria impossível ignorar, as instituições adaptaram suas operações.

A expectativa é que o mesmo padrão de adoção ocorra com crédito tokenizado: quando os valores de mercado atingirem escala crítica, a resistência institucional tenderá a desaparecer.

Desafios regulatórios e de segurança

A expansão do crédito via blockchain enfrenta obstáculos significativos que precisam ser superados para viabilizar uma adoção em massa.

O mercado tradicional dispõe de mecanismos sofisticados de controle de risco, como índice de Basileia, regulações sobre alavancagem e balanço de depósito e colateral, além de diversos indicadores para evitar quebras sistêmicas. As operações descentralizadas ainda carecem dessa estrutura de salvaguardas.

Especialistas apontam que o setor blockchain precisa evoluir significativamente em análise de risco. Enquanto operações simples — como usar Bitcoin como colateral para emprestar USDC — são relativamente diretas, estruturas mais sofisticadas exigem outro nível de expertise.

Operações que utilizem ativos tokenizados complexos, como uma Cédula de Produto Rural tokenizada para oferecer crédito de carbono tokenizado, demandam especialistas em avaliação de risco capazes de estruturar operações com múltiplas camadas.

Os riscos de segurança cibernética também constituem barreira relevante. Plataformas DeFi enfrentam exposição constante a vulnerabilidades em contratos inteligentes, ataques exploratórios e possibilidade de roubo de fundos.

A complexidade dos contratos inteligentes, essenciais para operação desses sistemas, apresenta desafios adicionais quando não auditados adequadamente. Protocolos de segurança robustos e auditorias regulares são necessários para ganhar confiança de investidores institucionais.

Regulação brasileira em evolução

O Brasil estabeleceu um marco regulatório robusto para criptoativos em novembro de 2025, com vigência prevista para fevereiro de 2026.

O Banco Central apresentou normas que exigem autorização e supervisão das Sociedades Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais (SPSAVs), incluindo obrigações rigorosas de governança, compliance, transparência e controles internos. Essas regulações visam reduzir fraudes, lavagem de dinheiro e criar ambiente mais protegido para operações.

A regulação oferece segurança jurídica necessária para que instituições financeiras tradicionais participem de operações com ativos digitais.

Ao mesmo tempo, busca-se equilibrar rigor regulatório com incentivo à inovação, especialmente para fintechs e startups que operam nesse ecossistema.

Tokenização de ativos reais como catalisador

A tokenização de ativos do mundo real (Real World Assets) emerge como fator determinante para expansão futura do crédito baseado em blockchain. Essa tecnologia converte ativos físicos — imóveis, commodities, títulos de dívida, cotas de fundos — em representações digitais negociáveis em ambiente blockchain.

Diferentemente de criptomoedas, os RWAs possuem lastro em ativos tangíveis, reduzindo volatilidade e aumentando apelo para investidores institucionais.

O Brasil articula ambições nessa direção por meio de iniciativas como o Drex, embora o projeto tenha sofrido redefinição de escopo recentemente. Conforme o Banco Central reorienta sua estratégia para 2026, foco imediato incide sobre infraestrutura de garantias de crédito e reconciliação de gravames.

Especialistas avaliam que essa mudança não representa retrocesso, mas reposicionamento tático que abre espaço para operações de crédito com garantias variadas em curto prazo.

Perspectivas futuras

Para 2026, espera-se maior dinamismo regulatório e testes práticos em ativos digitais. Institucionalização progressiva de operações de crédito em blockchain deve se acelerar conforme tecnologia amadureça e confiança institucional aumente.

O setor financeiro brasileiro consolida-se gradualmente como centro de inovação em finanças digitais, posicionando o país em linha com práticas internacionais desenvolvidas na União Europeia e Estados Unidos.

A coexistência entre mercados tradicional e cripto tende a se aprofundar na oferta de crédito, criando estruturas híbridas que combinam eficiência da automação descentralizada com salvaguardas regulatórias do sistema tradicional.

Operações sofisticadas envolvendo ativos tokenizados e empréstimos descentralizados passarão a integrar portfólio padrão de grandes instituições financeiras, condicionadas ao desenvolvimento contínuo de expertise em análise de risco e conformidade regulatória.

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Leandro Mendes

Leandro Mendes é o elo entre a tecnologia e o mercado. Sua experiência em análise de projetos e Finanças o permite oferecer uma perspectiva única sobre a Carreira em Tech, o impacto das Fintechs e o futuro das Criptomoedas.