Carros elétricos no Brasil devem crescer 26% ao ano até 2040

Carros elétricos no Brasil devem crescer 26% ao ano até 2040

A frota de automóveis movidos por bateria no Brasil acelerará significativamente nas próximas décadas, com projeção de crescimento médio de 26,1% ao ano até 2040.

Este avanço representa uma transformação estrutural no setor de mobilidade do país, impulsionada por redução de custos tecnológicos, novas fábricas de manufatura e políticas governamentais de incentivo à descarbonização.

De acordo com estudo da LCA Consultores encomendado pelo Instituto MBCBrasil, o número de veículos 100% elétricos nas ruas brasileiras crescerá em ritmo acelerado, embora estes ainda representem uma fração da frota total.

Simultaneamente, veículos híbridos — que combinam motor de combustão com bateria — continuarão a dominar o segmento eletrificado durante a transição tecnológica, respondendo por aproximadamente 72% da frota eletrificada até 2040.

A expansão do mercado de eletrificados será concentrada especialmente nas regiões Sul e Sudeste, áreas que dispõem de maior poder aquisitivo, infraestrutura elétrica mais robusta e rede de carregadores rápidos mais desenvolvida.

Contudo, a penetração dos carros 100% elétricos permanecerá limitada nas demais regiões do país.

Manufatura local como vetor de aceleração

A chegada de fabricantes chinesas ao Brasil marca um ponto de inflexão para a indústria automotiva nacional. A BYD, maior produtora mundial de veículos elétricos, iniciou operações em sua fábrica em Camaçari, na Bahia, em 2025, com capacidade para produzir até 150 mil unidades anuais na primeira fase, podendo chegar a 300 mil na segunda.

A GWM (Great Wall Motors), outra gigante chinesa do segmento, abriu fábrica em Iracemápolis, interior de São Paulo, também em 2025.

Estes investimentos, que totalizam dezenas de bilhões de reais, transformam o Brasil em um centro regional de produção. A BYD direcionou R$ 10 bilhões para operações no país até 2032, enquanto a GWM investiu mais de R$ 4 bilhões até 2026.

Adicionalmente, a expectativa é que outras montadoras chinesas como Neta, GAC e Omoda/Jaecoo anunciem produção no Brasil entre 2026 e 2030.

A estratégia das montadoras chinesas envolve também a adaptação tecnológica ao mercado brasileiro. A BYD desenvolve motor híbrido flex que combina a tecnologia elétrica com etanol, combustível produzido em larga escala no país.

Esta abordagem reconhece as características do mercado brasileiro e as particularidades das preferências de consumo locais.

Queda de custos de baterias como catalisador principal

O declínio significativo dos preços de baterias constitui o fator central para a aceleração da demanda. Em 2024, os preços das baterias de íon-lítio caíram 20%, a maior redução anual desde 2017.

O custo médio global dos pacotes de baterias atingiu US$ 115 por quilowatt-hora, com baterias para veículos elétricos caindo abaixo de US$ 100 por kWh — patamar considerado decisivo por analistas para viabilidade econômica dos eletrificados em escala massiva.

A tecnologia LFP (fosfato de ferro-lítio), dominante na China, responde por quase metade do mercado global de baterias para veículos elétricos e oferece vantagens econômicas significativas comparada às baterias tradicionales de níquel-manganês-cobalto.

Esta tecnologia apresenta menor custo, maior estabilidade e menor risco de incêndios, consolidando-se como padrão na indústria.

Projeções indicam que os preços das baterias podem cair pela metade nos próximos dois anos.

Para comparação, em 2023 o custo médio era US$ 149 por kWh, demonstrando trajetória de queda acelerada que torna os veículos elétricos progressivamente mais competitivos ante modelos com combustão interna.

O Brasil investe também na produção local de baterias. Estimativas apontam investimentos de R$ 1,6 trilhão no setor até 2040, com foco em tecnologias emergentes como baterias de estado sólido e de íon-sódio.

A fabricação local de baterias reduz custos logísticos, fortalece a cadeia de suprimentos nacional e amplia a competitividade dos eletrificados produzidos no país.

Crescimento acelerado entre 2027 e 2029

Consultoria estratégica PwC Brasil projeta que as vendas de veículos elétricos registrarão crescimento anual médio de 106% entre 2027 e 2029.

Este período marca a transição de uma fase inicial lenta para uma expansão acelerada, conduzida pela ampliação de produção local e entrada de novos fabricantes.

A consultoria estima que o Brasil disporá de 35 milhões de veículos eletrificados até 2040, sendo esta cifra composta predominantemente por híbridos.

As vendas de carros 100% elétricos devem representar 55% dos novos veículos até 2040, gerando receita anual estimada em US$ 65 bilhões.

Atualmente, o mercado já apresenta dinâmica de crescimento consistente. Em 2025, projeta-se que o Brasil ultrapasse 200 mil carros eletrificados vendidos anualmente, com crescimento superior a 20%.

Infraestrutura como principal obstáculo

O principal desafio para sustentar esta trajetória de crescimento reside na expansão da infraestrutura de recarga.

Atualmente, o Brasil conta com aproximadamente 15 mil a 16 mil eletropostos públicos e semi-públicos, concentrados predominantemente nas regiões Sudeste e Sul. A maioria destes pontos oferece carregamento lento, requerendo horas para completar a recarga.

Até 2040, o país necessitará expandir para 825 mil eletropostos totais, o que representa acréscimo de aproximadamente 807 mil pontos em relação aos níveis atuais. Esta expansão demandará investimentos entre R$ 20,7 bilhões e R$ 24,9 bilhões.

Além da quantidade, a qualidade da infraestrutura elétrica também constitui limitação.

As redes de distribuição de energia precisam ser adequadas para suportar o aumento significativo na demanda de eletricidade destinada ao carregamento de veículos, especialmente em períodos de pico.

A instalação de eletropostos enfrenta ainda desafios regulatórios.

A falta de padronização entre diferentes sistemas de carregamento, a dificuldade de interoperabilidade entre plataformas de diferentes fabricantes e a necessidade de atualização da legislação criam barreiras para expansão em escala nacional.

Políticas públicas como facilitadores

O governo federal estabeleceu o Programa Mover (Mobilidade Verde e Inovação) como instrumento para descarbonizar a frota nacional e fomentar a indústria automotiva.

O programa disponibiliza mais de R$ 19 bilhões em créditos financeiros até 2028 e introduz o IPI Verde, modelo de tributação que premia veículos mais eficientes e sustentáveis.

O Mover estabelece regime tributário especial para importação de autopeças sem produção nacional equivalente, condicionado a investimentos em pesquisa e desenvolvimento no Brasil.

Esta medida busca fortalecer a cadeia de suprimentos local e reduzir dependência de importações.

Redução do consumo de combustíveis fósseis

A expansão de veículos eletrificados resultará em queda expressiva no consumo de combustíveis fósseis. Estudos indicam que até 2030, a demanda por gasolina no país diminuirá 8 bilhões de litros (12% do consumo atual), enquanto o consumo de diesel cairá 6 bilhões de litros (10% do consumo atual).

Em 2040, estas reduções se amplificarão significativamente: 37 bilhões de litros a menos de gasolina (59% da demanda atual) e 41 bilhões de litros a menos de diesel (66% da demanda atual).

Esta transformação alinha-se com objetivos brasileiros de descarbonização.

O país pode atingir neutralidade de emissões de gases de efeito estufa até 2040, uma década antes da meta oficial, mediante combinação de investimentos em energia renovável e transição dos transportes.

Preferência do consumidor por híbridos plug-in

O mercado brasileiro revela preferência clara do consumidor por veículos híbridos plug-in (PHEV), que combinam motor de combustão com bateria recarregável em tomada. Dados de 2025 indicam que PHEVs responderam por 44% dos eletrificados vendidos, enquanto veículos 100% elétricos (BEV) representaram 37%.

Esta dinâmica reflete características específicas do consumidor brasileiro: preferência por autonomia em viagens de longa distância sem dependência exclusiva de infraestrutura de recarga, mantendo flexibilidade de abastecimento convencional.

Os híbridos tradicionais (HEV) e micro-híbridos (MHEV) completam o espectro, respondendo respectivamente por 10% e 8% das vendas.

A diversidade de tecnologias oferecidas pelas montadoras amplia as opções disponíveis, contribuindo para o crescimento consistente do segmento eletrificado.

Perspectiva de longo prazo

A eletrificação da frota brasileira progredirá conforme a trajetória de queda de custos das baterias se mantenha, novas fábricas atinjam plena capacidade produtiva e a infraestrutura de recarga se expanda.

A combinação destes fatores pode consolidar o Brasil como centro relevante de manufatura de veículos eletrificados na América Latina, gerando empregos e atraindo investimentos globais.

O crescimento médio de 26,1% ao ano até 2040 não representa explosão imediata, mas expansão sustentada e progressiva. Esta dinâmica permite que a indústria, as instituições financeiras, a infraestrutura energética e os consumidores se adaptem gradualmente às novas tecnologias.

A transição brasileira para mobilidade eletrificada reflete tendência global irreversível, conduzida por imperativos econômicos e ambientais que tornam a eletrificação progressivamente atrativa em relação às tecnologias de combustão interna.

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Gabriela Sampaio

Gabriela Sampaio é Editora-Chefe e uma profissional dedicada, com mais de 8 anos acompanhando de perto o cenário macro da tecnologia. Sua missão é decifrar as grandes tendências de Notícias, Inovação e Ciência que estão redefinindo o futuro.