
Aproximadamente seis mil aeronaves da família A320 enfrentaram paralisações globais a partir de sexta-feira, 28 de novembro, após a Airbus identificar uma falha crítica no sistema ELAC, responsável por transmitir os comandos do piloto aos mecanismos que controlam a inclinação do avião.
A descoberta desencadeou a maior interrupção operacional em décadas, afetando companhias aéreas em praticamente todos os continentes durante um dos períodos mais movimentados do ano viajero.
O problema originou-se de um incidente em 30 de outubro, quando um Airbus A320 da JetBlue que voava de Cancún a Newark experimentou uma perda súbita e não comandada de altitude, forçando um pouso de emergência em Tampa, na Flórida.
Investigações posteriores revelaram que radiações solares intensas poderiam corromper dados críticos do sistema ELAC, comprometendo a integridade do controle de voo. A Agência Europeia para a Segurança da Aviação (EASA) alertou que tal condição, se não corrigida, poderia resultar em movimentos não comandados do leme, potencialmente ultrapassando a capacidade estrutural da aeronave.
A Agência Europeia para a Segurança da Aviação emitiu uma diretiva emergencial de aeronavegabilidade exigindo que todos os operadores corrigissem o problema antes do próximo voo. Aproximadamente 5.100 aviões podem ser reparados com uma atualização rápida de software, que normalmente leva cerca de duas a três horas por aeronave.
No entanto, cerca de 900 jatos mais antigos necessitam da substituição física dos computadores de bordo, permanecendo inoperacionais durante o processo de manutenção, cuja duração depende da disponibilidade de componentes de reposição.
Nos Estados Unidos, a American Airlines informou que 340 de seus aproximadamente 480 aviões A320 foram afetados, com a maioria sendo atualizada entre sexta e sábado.
Delta Airlines expressou confiança em um impacto limitado em suas operações, enquanto United Airlines relatou perturbações menores em alguns voos. Na Austrália, a Jetstar cancelou 90 voos, afetando cerca de um terço de sua frota, com interrupções esperadas durante todo o fim de semana mesmo após as atualizações.
Na Europa, a Air France cancelou 35 a 38 voos em sexta-feira e anunciou cancelamentos adicionais para sábado. A easyJet confirmou que todas as suas aeronaves receberam a atualização de software, evitando cancelamentos.
A Lufthansa esperava "poucos atrasos" mas não havia detalhado o cronograma de reparos em sua frota de 156 A320. A British Airways, com apenas três aeronaves afetadas, não previu impactos operacionais significativos.
Na Ásia, o impacto foi substantivo. A All Nippon Airways (ANA), maior companhia aérea do Japão, cancelou 95 voos no sábado, afetando aproximadamente 13.500 passageiros.
Na Índia, mais de 330 aeronaves foram impactadas, sendo a IndiGo, maior operadora do país, capaz de atualizar 160 de seus 200 aviões apesar dos atrasos continuados. Air India já havia completado o reset em mais de 40% de suas aeronaves afetadas.
O avião papal utilizado pela Santa Sé encontra-se entre os 900 jatos que requerem substituição de hardware. A porta-voz do Vaticano, Matteo Bruni, confirmou que um técnico e um computador de reposição foram transportados de Roma a Istambul no sábado.
O Papa Leão XIV estava programado para voar de Istambul a Beirute no domingo, necessitando que a aeronave ITA Airways A320neo recebesse a manutenção de emergência antes de prosseguir.
Na América Latina, a Avianca, cuja frota depende majoritariamente do modelo A320, suspendeu a venda de passagens até 8 de dezembro como medida preventiva.
A Volaris, no México, alertou para possíveis atrasos de até 72 horas. Até o momento, não há indicações de impacto significativo nas operações brasileiras.
A escala da operação de reparo é extraordinária. A família A320, incluindo modelos A318, A319, A320 e A321, compreende aproximadamente 11.300 aviões em operação global, representando mais da metade da frota comercial mundial.
O volume de aeronaves necessitando manutenção sincronizada amplifica o efeito cascata através do setor.
A cadeia de manutenção aeronáutica enfrenta desafios estruturais que agravaram o cenário. A indústria sofre com escassez de mão de obra especializada, filas que se estendem por meses para revisões de motores e hangares operando em capacidade máxima.
Especialistas da AeroDynamic Advisory indicam que, apesar de o procedimento individual de reparo ser relativamente rápido, o efeito acumulativo desta interrupção em um setor já sobrecarregado gerará atrasos pontuais ao longo de semanas subsequentes.
A Airbus reconheceu que as modificações necessárias provavelmente causarão perturbações operacionais significativas para passageiros e clientes, e expressou desculpas pela situação.
A empresa destacou seu compromisso de mitigar cancelamentos, particularmente considerando o período de retorno de viagens de feriado em várias regiões. A segurança permanece como prioridade absoluta, conforme reafirmado pelas autoridades de aviação internacional, justificando a natureza emergencial da ação corretiva em âmbito global.










