FAO lança apelo de US$ 2,5 bi para enfrentar crise alimentar global

FAO lança apelo de US$ 2,5 bi para enfrentar crise alimentar global

O apelo visa alcançar mais de 100 milhões de pessoas em 54 países e territórios durante o ano de 2026. A meta é ambiciosa em escala e desafia diretamente a ineficácia dos modelos de assistência alimentar tradicional.

De acordo com o diretor-geral da FAO, QU Dongyu, a insegurança alimentar aguda triplicou desde 2016, apesar dos altos níveis de financiamento humanitário disponibilizados até agora. Essa discrepância sugere que a estrutura de resposta global aos problemas de fome não acompanha a velocidade e a amplitude da crise atual.

O apelo é estruturado em dois pilares principais. O primeiro, com dotação de 1,5 bilhão de dólares, concentra-se em intervenções que salvam vidas, incluindo fornecimento de sementes, ferramentas, campanhas de saúde animal e assistência em dinheiro para 60 milhões de pessoas.

O segundo pilar, com 1 bilhão de dólares, destina-se a programas de construção de resiliência, com foco em soluções agrícolas que beneficiam o clima, a biodiversidade e a segurança alimentar, alcançando 43 milhões de pessoas. Um terceiro segmento, de 70 milhões de dólares, é alocado para serviços globais, como monitoramento de ameaças à cadeia alimentar e coordenação entre esforços humanitários, de desenvolvimento e de paz.

A distribuição geográfica dos recursos revela a magnitude da crise em diferentes regiões. A Ásia e o Pacífico receberão 521,6 milhões de dólares para 30,5 milhões de pessoas. O Oriente Médio e o Norte da África terão acesso a 519,1 milhões para 29,2 milhões de pessoas. A África Oriental, região particularmente vulnerável, receberá 471,6 milhões de dólares para 18,4 milhões de pessoas.

A África Ocidental e Central, a região mais bem financiada do apelo, contará com 593,4 milhões de dólares destinados a 17,7 milhões de pessoas. Alocações menores, mas significativas, foram destinadas à África Austral, América Latina e Caribe, e Europa, particularmente para a população afetada pela guerra na Ucrânia.

Um aspecto central do apelo é a mudança de paradigma em relação ao investimento em agricultura. Atualmente, cerca de 80 por cento das pessoas enfrentando insegurança alimentar aguda vivem em áreas rurais, dependendo de agricultura, pecuária, pesca ou silvicultura como meio de subsistência.

No entanto, apenas 5 por cento do financiamento humanitário destinado ao setor alimentar apoia meios de vida agrícolas. Essa desproporção é reconhecida como um fator crítico que perpetua o ciclo de crise e dependência de assistência. O apelo busca corrigir esse desequilíbrio sistêmico ao posicionar a agricultura como centro da resposta a crises alimentares.

A ênfase em ações antecipatórias marca outra distinção importante da estratégia. Distribuições oportunas de sementes, campanhas de vacinação do rebanho, reabilitação de infraestruturas essenciais e assistência financeira têm demonstrado relações custo-benefício de até 7:1, significando que cada dólar investido na proteção da produção hoje pode gerar até sete dólares em perdas evitadas e redução de necessidades humanitárias posteriores.

Essa abordagem não apenas responde às crises imediatas, mas cria as condições para que as comunidades rurais mantenham a produção de alimentos, estabilizem-se economicamente e construam resiliência para enfrentar choques futuros.

O contexto global que justifica o apelo é grave. O Relatório Global sobre Crises Alimentares de 2025 indicou que 295 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar aguda em 53 países e territórios. Conflitos armados, particularmente no Sudão, colapso econômico, mudanças climáticas e um déficit consistente no financiamento humanitário convergem para deteriorar a segurança alimentar em múltiplas regiões.

O Sudão é destacado como um dos cenários mais críticos, com milhões de pessoas presas em zonas onde os mercados entraram em colapso e a distribuição de ajuda tornou-se praticamente inviável. A FAO alerta que algumas regiões podem se aproximar dos limites técnicos da fome se a situação não for estabilizada em curto prazo.

Outro fator amplificador da crise é a redução nos recursos destinados às operações humanitárias. O Programa Mundial de Alimentos (WFP) alertou para cortes de até 40 por cento no financiamento, o que significa que dezenas de milhões de pessoas perderão o apoio alimentar essencial em 2025.

Essa contração de recursos ocorre simultaneamente ao aumento das necessidades, tornando o apelo da FAO não apenas urgente, mas potencialmente crítico para evitar uma deterioração maciça em 2026.

O apelo também reflete um reconhecimento institucional de que a metodologia tradicional de resposta humanitária é inadequada para lidar com crises alimentares prolongadas.

Noventa por cento dos recursos humanitários são agora gastos em emergências de longa duração, como conflitos protratados, ainda que o número de pessoas com fome continue a aumentar. Essa realidade leva a FAO a propor uma consolidação de todas as exigências humanitárias e de resiliência em um único marco, evitando fragmentação e duplicação de esforços.

O apelo é member-driven, reality-driven, demand-driven, solutions-driven e cost-efficiency driven, conforme destacou o diretor-geral da FAO. Ele responde a uma demanda explícita de jovens em contextos de crise que pedem oportunidades, e não assistência permanente.

Ao reposicionar a agricultura como solução central, a FAO busca romper a lógica de dependência e criar condições para que comunidades rurais recuperem agência e dignidade.

O lançamento do apelo, realizado durante a 179ª Sessão do Conselho da FAO em Roma, marca um ponto de inflexão na abordagem global à insegurança alimentar. A urgência com que foi apresentado, associada aos números de cobertura pretendida e ao montante solicitado, sinaliza que a janela para evitar um agravamento catastrófico da crise alimentar mundial está se fechando rapidamente.

A mobilização de recursos dependerá da capacidade de doadores, governos e parceiros de reconhecer que investimento em soluções agrícolas não é apenas uma resposta humanitária, mas uma estratégia de longo prazo para reduzir necessidades futuras e estabilizar populações vulneráveis em contextos de crise.

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Gabriela Sampaio

Gabriela Sampaio é Editora-Chefe e uma profissional dedicada, com mais de 8 anos acompanhando de perto o cenário macro da tecnologia. Sua missão é decifrar as grandes tendências de Notícias, Inovação e Ciência que estão redefinindo o futuro.