Fórmula 1 2026: carros menores e mais rápidos com o Nimble Car Concept

Fórmula 1 2026: carros menores e mais rápidos com o Nimble Car Concept

A Fórmula 1 está prestes a viver uma transformação sem precedentes. A partir de 2026, a categoria implementará o maior pacote de mudanças regulamentares de sua história recente, afetando simultaneamente chassi, motores, aerodinâmica e sistemas de energia.

Esta revolução representa a primeira vez em que a FIA reforma tão profundamente todos os aspectos do design de um carro de F1 em um mesmo ciclo regulatório.

O Conceito do Carro Ágil

A filosofia central das novas regras é conhecida como "Nimble Car Concept", ou Conceito do Carro Ágil.

Este representa uma mudança de paradigma fundamental: reverter a tendência dos últimos anos de máquinas cada vez mais pesadas e volumosas, tornando os monolugares significativamente menores, mais leves e mais manobráveis.

Os números falam por si. Os carros de 2026 pesarão 768 quilogramas, redução de 30 quilogramas em relação aos atuais. Essa redução ocorre pela primeira vez em mais de duas décadas.

As dimensões também sofrem compressão expressiva: o entre-eixos diminui 200 milímetros, chegando a 3.400 milímetros, enquanto a largura total do carro é reduzida em 100 milímetros para 1.900 milímetros. O piso do carro também reduz 150 milímetros de largura, contribuindo para a redução geral de arrasto.youtube

Pneus mais estreitos complementam o pacote de leveza. Os Pirelli de 18 polegadas, mantidos desde 2022, ganham dimensões menores: 25 milímetros de redução na frente e 30 milímetros na traseira.

Pequenos detalhes estruturais como as abas sobre os pneus dianteiros, que caracterizavam os carros anteriores, desaparecem, contribuindo para linhas mais limpas e menor peso.

Aerodinâmica Revolucionária

Talvez a mudança mais visível aos telespectadores seja o fim do DRS, o sistema de redução de arrasto que dominou a Fórmula 1 desde 2011.

Em seu lugar surge a aerodinâmica ativa: asas dianteiras e traseiras completamente móveis que se ajustam automaticamente conforme o local do circuito onde o carro se encontra.

O sistema funciona em dois modos distintos. O Modo X, utilizado nas retas longas pré-designadas, abre os flaps das asas dianteira e traseira para reduzir drasticamente o arrasto.

Este modo está disponível para qualquer piloto, em qualquer volta, independentemente da posição relativa em relação aos adversários. O Modo Z, ativado nas curvas, mantém as asas em posição de máximo downforce para proporcionar velocidade em alta velocidade de curva.

Essa mudança reduz o arrasto em aproximadamente 55%, enquanto o downforce diminui entre 15% e 30%.

Embora pareça resultar em carros mais lentos nas curvas, o efeito colateral é velocidade aumentada na aceleração, uma vez que menos potência é desperdiçada em resistência aerodinâmica.

A estrutura da asa traseira também sofre simplificação. O beam wing—aquela pequena asa horizontal sob a asa traseira principal característica dos carros 2022-2025—é eliminado.

As abas da asa traseira também ganham desenho simplificado. A asa dianteira, por sua vez, reduz sua largura em 100 milímetros e passa a contar com flaps móveis de dois elementos.

Gerenciamento de Esteira Aerodinâmica

Uma preocupação persistente na Fórmula 1 moderna é a dificuldade de carros em se manterem próximos nas curvas.

As máquinas que seguem sofrem com a turbulência criada pelo carro da frente, reduzindo aderência e impossibilitando ultrapassagens. As novas regulamentações buscam resolver este problema de maneira inteligente.

Os cálculos da FIA indicam que, nos primeiros testes do novo ciclo regulatório, a retenção de downforce a 20 metros atrás de outro carro deve alcançar aproximadamente 90%.

Essa cifra representa a melhor performance jamais vista em termos de proximidade entre máquinas. Para contexto, os atuais carros da geração 2022-2025 degradam de 85% para cerca de 70% durante uma temporada.

Essa melhoria provém de duas frentes. Primeiramente, a redução geral de arrasto torna a esteira menos disruptiva.

Segundo, detalhes aerodinâmicos que historicamente criavam padrões de fluxo prejudiciais—como as pontas das asas dianteiras e a estrutura dos freios—foram retrabalhados para minimizar esse efeito negativo.

Os Motores Híbridos Revolucionários

A transformação dos propulsores marca a segunda face desta revolução regulatória.

O coração permanece híbrido 1.6 litros V6 turbo, mas o equilíbrio de potência sofre mudança radical: distribuição quase perfeita entre potência de combustão interna e potência elétrica, aproximadamente 50-50.

O motor de combustão interna tem sua potência reduzida para aproximadamente 400 quilowatts, enquanto a componente elétrica explode de meros 120 quilowatts atuais para 350 quilowatts—aumento de 300%.

Esta elevação de potência elétrica tem raízes na remoção do MGU-H, o complexo sistema de recuperação de calor que, desde sua introdução em 2014, adicionava significativa complexidade e peso aos propulsores.

A bateria agora funciona com capacidade expandida. Sistema de recuperação de energia pode recarregar a bateria com aproximadamente 8,5 megajoules por volta—o dobro dos atuais—através de frenagem ou desaceleração ao final das retas.

O carro também multiplica por três sua capacidade de frenagem elétrica em relação aos modelos anteriores.

Esses motores rodam combustíveis completamente sustentáveis pela primeira vez na história da Fórmula 1. O e-fuel, combustível sintético avançado, é produzido de fontes como captura de carbono, resíduos municipais e biomassa não alimentar.

A rigidez dos critérios de sustentabilidade garantiu que a certificação independente verifique a origem de cada componente, desde o ponto de produção até o uso.

O Modo de Ultrapassagem Manual

Embora a aerodinâmica ativa reduza o arrasto para melhorar eficiência, a principal ferramenta de ataque para ultrapassagens é o novo Modo de Ultrapassagem Manual.

Quando um piloto aproxima-se a menos de um segundo do adversário à frente, em zonas de ativação designadas do circuito, acesso a energia elétrica adicional de 0,5 megajoules torna-se disponível.

Essa energia extra permite velocidades aumentadas em até 337 quilômetros por hora. Simultaneamente, o carro da frente sofre redução progressiva de sua potência elétrica acima de 290 quilômetros por hora, criando diferencial de desempenho que facilita a manobra de ataque.

O sistema inclui também o "Botão de Reforço" que pilotos podem ativar em defesa ou ataque em qualquer momento da volta, permitindo uso concentrado ou distribuído ao longo do traçado, conforme a estratégia da equipe.

Esta abordagem tripla—aerodinâmica ativa para eficiência, modo de ultrapassagem para ataque coordenado, e controle manual da bateria—cria camada de complexidade inédita.

Pilotos e engenheiros precisam colaborar continuamente para otimizar quando usar cada ferramenta, transformando a gestão energética em aspecto tático crítico das corridas.

Impactos na Dinâmica de Prova

A combinação destas mudanças altera fundamentalmente como as corridas se desenrolam. Com menos downforce e arrasto reduzido, os carros ganham velocidade nas retas mas perdem velocidade nas curvas em relação aos modelos atuais.

Inicialmente, os tempos de volta podem sofrer pequena degradação; contudo, as projeções indicam que os times, através da evolução no desenvolvimento, recuperarão o tempo perdido.

A maior dificuldade residirá em adaptar-se ao manejo alterado. Menos downforce significa menos aderência sobre o asfalto, exigindo aproximação diferenciada para aproximar-se da performance do carro. Diferentes pilotos e estilos de condução podem adaptar-se com velocidades variadas, potencialmente nivelando o grid.

Mercedes, através de seu diretor técnico adjunto Simone Resta, preparou-se para um futuro "imprevisível": "É muito diferente, especialmente em corrida. Estamos acostumados com um DRS em zonas definidas, mas agora cada piloto terá asas móveis em muitos pontos da volta, usando energia para ultrapassar. Será diferente e potencialmente bem mais imprevisível".

Segurança Aprimorada

A FIA nunca neglencia segurança nas reformulações regulatórias. Os carros de 2026 implementam estrutura frontal revisada e proteção aumentada contra intrusão lateral.

A célula de sobrevivência do piloto enfrenta testes ainda mais rigorosos. O roll hoop, aquela estrutura protetora traseira, tem sua resistência aumentada de 16G para 20G, equivalente a resistir à força de aproximadamente 25 toneladas.

Estrutura dianteira de impacto ganha design em dois estágios, oferecendo proteção superior em acidentes com múltiplos pontos de contato.

Luzes de endplate da asa traseira serão homologadas, enquanto luzes de segurança lateral identificarão o status do sistema de recuperação de energia.

O Panorama de Fabricantes

A ambição das regulações de 2026 atraiu interesse inédito de fabricantes de unidades de potência. Pela primeira vez em anos, cinco fornecedores comprometem-se com a série: Mercedes e Ferrari, fornecedoras tradicionais; Audi, entrante completamente nova na categoria; Honda, retornando após sair em 2021; e Ford, apoiando a iniciativa Red Bull Powertrains.

General Motors também receberá aprovação para ingressar em 2029 com seu próprio propulsor para o time Cadillac.

Esta multiplicidade de fabricantes representa uma vitória da FIA em tornar a Fórmula 1 mais atrativa e sustentável economicamente.

As regulações de 2026 foram deliberadamente desenhadas para reduzir custo e complexidade, aumentando viabilidade competitiva para novos entrantes.

O Maior Ciclo de Mudança

Os números demonstram a magnitude desta transformação. Simultaneamente alterar chassi e motores marca a primeira vez em que ambos sistemas sofrem revisão tão profunda no mesmo ciclo regulatório.

A FIA caracteriza estas regulações como "o maior pacote de mudanças da categoria em mais de uma década".

Diferentemente dos ciclos anteriores, onde mudanças no motor ou no chassi ocorriam isoladamente, 2026 representa transformação holística do conceito de carro de Fórmula 1.

Pilotos, equipes e fornecedores enfrentam curva de aprendizado abrupta, mas a expectativa é que desta turbulência inicial emerjam corridas mais competitivas, imprevisíveis e sustentáveis, alinhadas com objetivos da categoria para a próxima década.

Gabriela Sampaio - image

Gabriela Sampaio

Gabriela Sampaio é Editora-Chefe e uma profissional dedicada, com mais de 8 anos acompanhando de perto o cenário macro da tecnologia. Sua missão é decifrar as grandes tendências de Notícias, Inovação e Ciência que estão redefinindo o futuro.