O JPMorgan promoveu uma revisão agressiva em sua recomendação para as ações da ISA Energia (ISAE4), elevando a classificação diretamente de underweight (equivalente a venda) para overweight (equivalente a compra), em movimento conhecido como dupla elevação.
O banco norte-americano também ajustou o preço-alvo da companhia para R$ 30 ao final de 2026, ante os R$ 26,50 anteriores, sinalizando um potencial de valorização próximo a 20% em relação aos níveis atuais, considerando dividendos.
A mudança de postura do JPMorgan reflete uma avaliação de que a transmissora paulista apresenta assimetria de risco positiva após período de desempenho inferior ao setor elétrico.
Enquanto o índice de utilities acumulou alta próxima de 30% em 2025, as ações da ISA Energia avançaram cerca de 17% no mesmo período. Na sessão de 14 de dezembro, as ações da companhia reagiram fortemente ao relatório do banco, com valorização de 5,41% e cotação a R$ 28,64.
Vetores de valorização ainda não precificados
O JPMorgan identificou três catalisadores principais que ainda não estariam adequadamente refletidos na taxa interna de retorno real (TIR) de 9,8% da ISA Energia em seu cenário-base.
A primeira frente envolve questões regulatórias, com potencial de agregar cerca de R$ 500 milhões em valor presente líquido (VPL) relacionado a investimentos realizados entre 2000 e 2012 que não teriam sido remunerados integralmente.
Em 2024, a Aneel reconheceu o direito da ISA Energia à compensação sobre esses investimentos, embora o valor final ainda esteja em análise.
A expectativa é que no primeiro semestre de 2026 a companhia retome as conversas com a agência reguladora sobre a remuneração desses ativos, que segundo o JPMorgan poderiam resultar em aproximadamente R$ 425 milhões de VPL considerando a base apresentada pela empresa de R$ 180 milhões a preços de 2023.
A segunda frente de valorização envolve o litígio em andamento com o governo do Estado de São Paulo relacionado aos custos de fundos de pensão previstos na Lei Estadual 4.819/58, aplicável a funcionários admitidos pela Companhia Energética de São Paulo (Cesp) até maio de 1974.
A ISA Energia arca anualmente com despesas estimadas entre R$ 150 milhões e R$ 200 milhões relativas a essas obrigações, valores que a empresa alega serem de responsabilidade do Estado.
Ao longo de aproximadamente 20 anos, esses desembolsos somam cerca de R$ 3 bilhões em créditos a receber reivindicados, montante que, se atualizado pela Selic, poderia alcançar próximo a R$ 7 bilhões atualmente, segundo estimativas do JPMorgan.
O banco projeta que essa questão tem potencial de gerar valorização adicional entre 23% e 33% do VPL da companhia, embora reconheça que um eventual acordo provavelmente incluiria descontos sobre o valor ajustado.
Em maio de 2025, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou a convocação de ISA Energia e Fazenda Pública do Estado de São Paulo para audiência de mediação.
Contudo, o JPMorgan mantém cautela quanto a um desfecho de curto prazo, especialmente com a aproximação das eleições estaduais.
Benefícios do cenário macroeconômico
A terceira frente de valorização está vinculada ao ambiente macroeconômico, especificamente ao potencial ciclo de queda da Selic.
O JPMorgan estima que cada redução de 100 pontos-base na taxa básica de juros pode gerar aumento de aproximadamente 3% no lucro por ação projetado para 2026 e 2027.
A ISA Energia está particularmente bem posicionada para se beneficiar de juros reais mais baixos devido à estrutura de seus contratos. A companhia possui 100% dos contratos corrigidos pela inflação, sem risco de volume, o que garante previsibilidade de caixa e funciona como proteção quase perfeita contra a alta dos preços.
Além disso, a empresa vem alongando a duração de seus fluxos de caixa, estimada em cerca de nove anos, por meio de crescimento orgânico via investimentos em reforços e melhorias (capex de reforço) e crescimento inorgânico através de projetos greenfield.
As projeções do mercado financeiro indicam que a Selic deve recuar de 15% atualmente para cerca de 12% ao final de 2026 e 10,5% em 2027, segundo o Boletim Focus.
Embora o ritmo de cortes seja incerto devido às pressões fiscais do governo federal, a tendência de afrouxamento monetário ao longo de 2026 tende a favorecer empresas com perfil de fluxo de caixa longo, como a ISA Energia.
Desempenho recente e estrutura financeira
A ISA Energia reportou lucro líquido de R$ 550 milhões no terceiro trimestre de 2025, alta de 27% em relação ao mesmo período de 2024.
O resultado foi impulsionado pela dedutibilidade dos juros sobre capital próprio (JCP) de R$ 445 milhões anunciados no período, além do fim da depreciação represada da RBSE e redução de custos e despesas.
A receita líquida do terceiro trimestre somou R$ 1,1 bilhão, recuo de 9% frente à base comparativa forte e ao impacto da redução do componente financeiro relacionado à RBSE, conforme decisão da Aneel.
O lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação (Ebitda) caiu 7% para R$ 888 milhões no período.
A companhia tem mantido ritmo intenso de investimentos, com R$ 1,2 bilhão destinados no terceiro trimestre, aumento de 39% em relação ao mesmo período do ano anterior, com a maior parte direcionada a projetos greenfield.
Esse volume de desembolsos tem pressionado os indicadores de endividamento: a alavancagem medida pela relação dívida líquida sobre Ebitda atingiu 3,44x no terceiro trimestre de 2025, contra 2,72x no quarto trimestre de 2024.youtube
O patamar de alavancagem superou o limite de 3,0x estabelecido nos covenants do BNDES, banco com o qual a ISA Energia possui R$ 695 milhões em dívidas pendentes.
A companhia já iniciou tratativas para obtenção de waiver, ou seja, dispensa temporária dessa obrigação contratual, junto ao banco de fomento.
Riscos no radar
Apesar da visão mais construtiva, o JPMorgan destaca riscos relevantes que podem afetar a tese de investimento.
A alavancagem financeira da ISA Energia é estimada em aproximadamente quatro vezes a relação dívida líquida sobre Ebitda entre 2026 e 2029, o que pode limitar a flexibilidade financeira em determinados cenários.
Outro ponto de atenção envolve a participação de 21% na ISA Energia detida pela Axia (AXIA3), antiga Eletrobras. O banco considera possível pressão vendedora relacionada a essa posição, tendo em vista declarações anteriores da Axia sobre potenciais desinvestimentos para recomposição de seu portfólio.
Em dezembro de 2025, a Axia aprovou aumento de capital de R$ 30 bilhões com emissão de ações bonificadas e vem estudando migração ao Novo Mercado da B3, movimentos que podem alterar sua estratégia de alocação de capital.
O JPMorgan também elenca três fatores adicionais que poderiam pressionar a recomendação: crescimento abaixo do esperado caso a ISA não sustente os níveis atuais de capex de reforço; extensão dos pagamentos à Secretaria da Fazenda de São Paulo (Sefaz) além de 2032, comprometendo resultados futuros; e eventual fim do benefício fiscal dos juros sobre capital próprio, que reduziria o preço-alvo em cerca de R$ 2,50 por ação.
Mesmo diante desses riscos, o banco avalia que o balanço entre oportunidades e desafios favorece uma visão mais positiva para o papel no médio e longo prazo.
A combinação de contratos indexados à inflação, fluxos de caixa estáveis, prazo médio remanescente de portfólio próximo a 19 anos e catalisadores potenciais justificaria a elevação da recomendação para compra.

