Uma mulher aguardou por Brad Pitt no aeroporto. Não era piada de twitter, nem delírio ocasional. Durante três meses, ela trocou mensagens e realizou videochamadas com alguém que afirmava ser o galã de Hollywood.
A cena, quando abordada pela polícia em Erechim, virou viral nas redes sociais — mas não pelos motivos que deveriam.
O episódio começou com leveza. Uma gaúcha brincou nas redes que estava noiva do ator, e a internet respondeu com o que a internet sabe fazer melhor: memes.
Imagens geradas por inteligência artificial mostraram Brad Pitt em pontos turísticos do Rio Grande do Sul — na praia, no centro comercial, sempre com um sorriso que nunca esteve lá. O humor correu solto, os comentários acumularam curtidas, mas por trás daquele riso fácil escondia-se um alerta que as autoridades não podiam deixar passar.
A Polícia Civil do Rio Grande do Sul aproveitou a repercussão viral para reafirmar o que delegados especializados já sabem muito bem: aquela mesma tecnologia que gera memes engraçados é a que criminosos utilizam para fraudes sofisticadas que custam dinheiro, confiança e dignidade às vítimas.
Não é mais o velho esquema do "príncipe nigeriano" que pede herança fictícia por email. Agora, criminosos criam celebridades digitais, com rosto, voz e promessas sob medida.
A Engenharia do Engano
Segundo o delegado Eibert Moreira, da Delegacia de Repressão a Crimes Cibernéticos da Polícia Civil do RS, o mecanismo é desumanamente simples. Golpistas coletam fotos e vídeos disponíveis na internet — material público, fácil de encontrar — e os usam para treinar modelos de inteligência artificial.
Essas máquinas aprendem a reproduzir o rosto e a voz da pessoa com movimentos convincentes. O resultado é um deepfake que engana não apenas pela aparência, mas pela capacidade de manter uma conversa, de responder mensagens, de gerar videochamadas que parecem reais.
A operação segue um padrão afinado pela prática. Criminosos criam perfis falsos usando imagens de celebridades ou militares — pessoas cujas imagens despertam admiração ou confiança.
Constroem rapidamente um vínculo emocional com a vítima, adaptando cada conversa para corresponder aos seus interesses, seus desejos, criando aquela sensação de que finalmente encontrou alguém perfeito demais para ser verdade. Porque, de fato, é.
"Surge uma paixão muito rápida. Logo depois, vem o pedido de dinheiro", descreve o delegado Moreira. O criminoso alega uma emergência: precisa de recursos para a passagem de avião para se encontrar, está preso em um país estrangeiro, teve um acidente e precisa de ajuda médica.
As histórias são variadas, mas o padrão é perfeito: uma transferência por Pix. Rápida, irreversível, irrastreável para a maioria das vítimas.
Uma Vítima Real, Uma Aposentada de 68 Anos
O que parecia ser um fenômeno restrito ao humor das redes sociais ganhou corpo trágico quando a polícia do Rio Grande do Sul investigou um caso em São Borja, na Fronteira Oeste do estado. Uma aposentada de 68 anos foi convencida de que estava noiva do cantor Gabriel Pasa, um artista paranaense.
O criminoso por trás do esquema usava as imagens do músico para manter relacionamentos falsos com várias mulheres simultaneamente, extraindo dinheiro em forma de presentes, com promessas de encontros que nunca aconteceriam.
Casos como esse não são exceções. Desde a criação da delegacia especializada em crimes cibernéticos no RS, mais de 81 pessoas envolvidas com esse tipo de crime foram presas. O número parece alto — e é —, mas reflete apenas uma fração da realidade.
Muitas vítimas não reportam. Outras levam tempo para perceber que foram enganadas. Há aquelas que carregam a vergonha em silêncio, não querendo admitir que caíram em um golpe digital.
O Contexto Assustador
O problema não se limita ao Rio Grande do Sul. Está em escala nacional e internacional. Pesquisas globais revelam que mais de 52% das pessoas foram enganadas ou pressionadas a enviar dinheiro por alguém que conheceram online.
Um em cada quatro adultos (26%) foi abordado por um chatbot de inteligência artificial fingindo ser uma pessoa real em aplicativos de namoro ou redes sociais.
No Brasil, a situação é ainda mais preocupante. Segundo relatório do Global Anti-Scam Alliance, brasileiros enfrentam em média 252 encontros com tentativas de golpe por ano — praticamente uma a cada dia e meio.
Setenta por cento dos adultos foram vítimas de pelo menos um golpe nos últimos doze meses. O prejuízo total: R$99 bilhões.
A dimensão psicológica é tão grave quanto a financeira. Oitenta e seis por cento das vítimas relatam sentimento de estresse após serem enganadas. Cinquenta e nove por cento relata impacto significativo ou moderado na sua saúde mental.
Cada pessoa, em média, é enganada 1,9 vez por ano — demonstrando como golpistas reincidentes sabem exatamente onde explorar fragilidades que já foram feridas antes.
As fraudes com deepfake explodem. Entre 2023 e 2024, cresceram 822% no Brasil. O país é um epicentro da tecnologia de falsificação digital — os incidentes com deepfake aqui são cinco vezes mais frequentes que nos EUA e dez vezes maiores que na Alemanha.
Em 2025, o crescimento continuou: 126% de aumento nos ataques com essa tecnologia.
Sinais de Alerta: O Que Procurar
Nem tudo é invisível. A tecnologia de deepfake ainda está em evolução, e há pistas que podem delatar o engano — para quem sabe onde procurar.
Observe os movimentos oculares. Inteligência artificial tem dificuldade em replicar a taxa natural de piscar e os movimentos sutis dos olhos humanos.
Verifique se a iluminação do rosto corresponde ao fundo da imagem; deepfakes frequentemente falham nesse detalhe. Expressões faciais podem parecer ligeiramente fora do lugar, um sorriso que não combina com o tom da conversa.
Em vídeos, preste atenção à sincronização entre a voz e os movimentos labiais. Se parecerem desincronizados, o vídeo pode ser falso. Áudio gerado por IA frequentemente soa monótono, com padrões de fala não naturais.
Há mais. Procure por dedos a mais nas mãos — um erro comum de geradores de imagens com IA. Olhos podem parecer sem alma ou mortos. Sombras em locais onde não seriam naturais, tons de pele irregulares, movimentos robóticos e rígidos.
Mas talvez o indicador mais importante seja comportamental. Relacionamentos que se desenvolvem muito rápido, com promessas de amor intenso em poucas semanas. Recusas repetidas em fazer uma verificação de identidade clara.
Pressão para mover o bate-papo para fora do aplicativo de namoro, para plataformas menos monitoradas. E, acima de tudo: pedidos de dinheiro acompanhados de histórias de urgência.
Defesa: O Que a Polícia Recomenda
A recomendação mais direta da delegacia é desconfiar de relações virtuais muito intensas acompanhadas de pedidos de dinheiro. Não é romance paranóico — é cautela apropriada em um mundo onde tecnologia e criminalidade se abraçam.
Ao perceber que pode estar sendo enganado, a vítima deve procurar a polícia imediatamente. O delegado Moreira afirma que as investigações conseguem rastrear os autores com alto grau de certeza.
Há formas legais e técnicas de seguir o rastro de uma transferência por Pix, de identificar de onde veio a mensagem, de quem estava por trás da câmera.
Para proteção preventiva, insista em verificações diretas de identidade. Se alguém o conhece bem, passe adiante uma palavra-chave secreta para confirmar comunicações importantes.
Peça à pessoa para realizar ações inesperadas diante da câmera — escrever o seu nome em um papel, fazer uma pose específica — ações que deepfakes mal feitos ainda não conseguem replicar naturalmente.
Se a conversa parecer perfeita demais, corra partes do texto por ferramentas de detecção de IA. O algoritmo pode revelar se está falando com uma pessoa ou com um modelo de linguagem.
Conduza investigações básicas: pergunte coisas muito específicas sobre o local onde a pessoa diz morar, sobre nicho profissional, detalhes que apenas alguém real saberia.
A Dimensão Invisível: Quando Memes Machucam
Há um aspecto do episódio de Brad Pitt que merece atenção, mesmo que custe o incômodo de pensar. A mulher que aguardou no aeroporto de Erechim virou personagem pública sem pedir ingresso para esse espetáculo.
Foi julgada, ridicularizada, reduzida a piada em milhares de comentários. A própria imagem de Brad Pitt — ou melhor, o direito à sua imagem — foi sequestrada para um jogo de falsas aparições.
E essa é a questão mais sutil e perigosa. Solidão, carência, desejo de pertencimento, admiração por celebridades — essas fragilidades humanas extraordinariamente comuns — agora viram moeda de troca nas mãos de quem tem algoritmos.
Não escolhe perfil específico de vítima; escolhe emoção. Qualquer um — jovem, idoso, instruído, desinformado — pode ser alvo quando consegue fingir que compreende o que o coração deseja.
Os memes com Brad Pitt em Erechim são engraçados, é verdade. Mas também são aviso. A tecnologia que os gerou não diferencia entre diversão e fraude, entre humor e exploração. Depende apenas de quem a maneja e com qual intenção.
A Linha Tênue Entre Riso e Alerta
Ao longo de 2025 e no início de 2026, crimes cibernéticos envolvendo inteligência artificial explodiram em sofisticação.
O Brasil registra o maior número de deepfakes na América Latina. Criminosos evoluem. As técnicas ficam mais convincentes. Os algoritmos aprendem mais rápido que a defesa.
Mas há uma vantagem que a tecnologia ainda não conseguiu replicar completamente: a capacidade de um humano em confiar no instinto, em questionar, em se recusar a aceitar perfeição demais.
Não é paranóia desconfiar de um perfeito desconhecido que o ama em poucas semanas. Não é fraqueza perceber que algo não bate certo em uma videochamada que parece ligeiramente lenta demais, um sorriso que não chega inteiro aos olhos, uma história que tem furos.
A Polícia Civil do RS, por meio da delegacia especializada, continua trabalhando. Mais de 81 pessoas já foram presas. As investigações continuam.
Mas a melhor defesa está nas mãos de quem usa a internet: atenção constante, ceticismo apropriado e a disposição em acreditar que, sim, aquilo pode estar acontecendo com você — exatamente porque pode estar acontecendo com qualquer um.

