ABAG: Acordo Mercosul-União Europeia reforça segurança alimentar

ABAG: Acordo Mercosul-União Europeia reforça segurança alimentar

O avanço do acordo Mercosul–União Europeia recolocou o agronegócio no centro da agenda geopolítica e econômica, e a avaliação da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) é clara: o tratado fortalece simultaneamente a segurança alimentar, a segurança energética e a agenda de sustentabilidade dos dois blocos.

Ao diversificar fornecedores, ampliar a oferta de alimentos e bioenergia e criar um arcabouço jurídico estável para investimentos verdes, o pacto é visto pela entidade como peça estratégica em um cenário de tensões geopolíticas, mudanças climáticas e reconfiguração de cadeias globais de suprimento.economicnewsbrasil

Segurança alimentar europeia e papel do Mercosul

Para a ABAG, o acordo tem importância estratégica direta para a segurança alimentar da União Europeia.

A leitura é de que o bloco europeu busca reduzir riscos estruturais em suas cadeias de suprimento, diminuindo a concentração de dependência em poucos fornecedores, em especial diante de conflitos, sanções e rupturas logísticas que marcaram os últimos anos.abag

Ao ampliar e diversificar o acesso a alimentos provenientes do Mercosul – tradicionalmente competitivo em grãos, carnes, açúcar, etanol e outros produtos agroalimentares – a UE adiciona uma camada de resiliência ao seu abastecimento.

A ABAG ressalta que a combinação entre grande oferta de terras agricultáveis, produtividade crescente e tecnologia tropical coloca o Mercosul como “potência alimentar” capaz de responder com escala e regularidade à demanda internacional.agro.estadao

Esse reforço da segurança alimentar não se dá apenas em volume, mas também em previsibilidade.

O acordo tende a reduzir incertezas por meio de regras estáveis, cronogramas de desgravação tarifária, mecanismos de solução de controvérsias e maior transparência regulatória, o que favorece contratos de longo prazo e planejamento de investimentos em produção, logística e armazenagem.abag

Ao mesmo tempo, a União Europeia preserva seus padrões sanitários e fitossanitários, argumento reiterado pela Comissão Europeia, que afirma que o tratado não implica flexibilização das normas de saúde e segurança alimentar.

Nesse contexto, o Mercosul se apresenta, aos olhos da ABAG, como fornecedor confiável capaz de atender a exigências técnicas rigorosas, elevando o patamar de rastreabilidade e controle em várias cadeias.ifz

Mercosul como potência energética e vetor da transição

Outro ponto central na avaliação da ABAG é o papel do acordo na consolidação do Mercosul como potência energética, em especial em bioenergia e fontes de baixa emissão.

A região já se destaca pela produção de etanol, biodiesel, biogás, bioeletricidade e, cada vez mais, por projetos associados ao hidrogênio de baixo carbono e a combustíveis sintéticos.abag

O tratado é visto como catalisador dessa vocação ao abrir espaço para novas agendas estratégicas, como combustíveis sustentáveis de aviação (SAF), transporte marítimo de baixo carbono e cooperação em mobilidade híbrida.

Na visão da entidade, essas frentes tendem a aproximar ainda mais os dois blocos em temas críticos para a transição energética global, com potencial de transferência de tecnologia, investimentos em infraestrutura e integração de cadeias industriais.abag

A ABAG também destaca que, ao reconhecer e incorporar instrumentos de finanças climáticas, valoração de serviços ecossistêmicos e produtos da bioeconomia, o acordo ajuda a dar lastro econômico à transição energética conduzida pelo agronegócio sul-americano.

Ao mesmo tempo, reforça a percepção de que a matriz energética e agroindustrial do Mercosul – intensiva em renováveis – é parte da solução para a descarbonização global, e não apenas fonte de emissões.agenciabrasil.ebc

Sustentabilidade, clima e arcabouço regulatório

No campo da sustentabilidade, a avaliação da ABAG dialoga com a leitura de que o acordo UE–Mercosul funciona como laboratório de um comércio orientado por objetivos climáticos e socioambientais.

O texto incorpora capítulo específico de Comércio e Desenvolvimento Sustentável, vinculado ao Acordo de Paris e a compromissos de combate ao desmatamento ilegal, gestão sustentável de recursos naturais e promoção de cadeias de baixo carbono.sna

A entidade ressalta que o tratado estabelece um arcabouço jurídico favorável à cooperação entre blocos democráticos com economias de mercado, estimulando a livre iniciativa e ampliando a participação do setor privado no desenvolvimento sustentável.

Esse enquadramento não é meramente retórico: na prática, cria um ambiente mais previsível para investimentos em tecnologias limpas, agricultura de baixa emissão, recuperação de áreas degradadas, bioeconomia e inovação em processos industriais.canalrural

A leitura convergente do governo brasileiro, em especial do Ministério do Meio Ambiente, reforça esse diagnóstico. A pasta aponta que o acordo está alinhado à agenda ambiental brasileira e às metas de combate ao desmatamento, integrando instrumentos financeiros de clima e biodiversidade e mecanismos de informação sobre desflorestamento e cumprimento da legislação ambiental pelos exportadores.

Para a ABAG, esse alinhamento tende a valorizar a produção que já incorpora boas práticas e a dar visibilidade internacional às iniciativas do agronegócio alinhadas ao Plano ABC+ e a sistemas de rastreabilidade e certificação.abag

Ao mesmo tempo, o debate sobre salvaguardas, lei europeia antidesmatamento e restrições unilaterais segue como fonte de tensão entre produtores sul-americanos e reguladores europeus.

Federações agrícolas e analistas apontam risco de protecionismo disfarçado em regras ambientais e sanitárias, o que, para parte do setor, pode comprometer previsibilidade e acesso efetivo ao mercado europeu. Nesse cenário, a ABAG enfatiza a necessidade de diálogo permanente para evitar que o “precaucionismo” acabe por prejudicar o combate à insegurança alimentar e à pobreza rural.cnnbrasil

Diversificação de cadeias e segurança de suprimento

No centro da análise da ABAG está a ideia de que o acordo responde à busca europeia por diversificação de cadeias de suprimento, tanto de alimentos quanto de energia.

Após choques recentes em insumos agrícolas, energia fóssil e fertilizantes, a UE procura reduzir vulnerabilidades e dependências concentradas em poucos países e rotas logísticas.economicnewsbrasil

Ao ampliar o espaço do Mercosul nessas cadeias, o tratado reforça a segurança de suprimento para o bloco europeu e, simultaneamente, confere ao Mercosul maior peso como ator estratégico em debates globais sobre clima, comércio e segurança alimentar.

Na visão da ABAG, essa reconfiguração tende a consolidar o Mercosul como “potência alimentar, energética e ambiental”, expressão que sintetiza a combinação de produtividade agrícola, matriz renovável e ativos ambientais – florestas, água, biodiversidade – presentes na região.opresenterural

Essa diversificação, porém, não elimina assimetrias nem conflitos de interesse. Segmentos do agro europeu temem competição em custos e margens, enquanto produtores sul-americanos veem risco de que salvaguardas e cotas esvaziem parte dos ganhos do acordo em produtos sensíveis como carne, açúcar, etanol e milho.

A ABAG reconhece esse ambiente complexo, mas insiste que o arcabouço institucional criado pelo tratado oferece base mais sólida para negociar ajustes, resolver controvérsias e aprofundar cooperação em temas regulatórios.agro.estadao

Novas agendas: combustíveis sustentáveis, logística e integração bioceânica

A entidade destaca ainda que o acordo não se limita à agenda clássica de tarifas agrícolas, abrindo espaço para novas frentes de cooperação econômica e tecnológica. Entre elas, ganham relevo:abag

  • Combustíveis sustentáveis para aviação (SAF), com potencial de uso intensivo de biomassa e resíduos agrícolas do Mercosul.canalrural
  • Transporte marítimo de baixo carbono, integrando biocombustíveis avançados, eficiência energética e novas tecnologias de propulsão.economicnewsbrasil
  • Cooperação em mobilidade híbrida, com maior integração entre cadeias industriais automobilísticas e de autopeças, incluindo componentes para veículos híbridos e elétricos.agro.estadao

Essas agendas se combinam a projetos de integração logística e infraestrutura, como rotas bioceânicas que conectam o Atlântico ao Pacífico e aproximam o Mercosul de outros mercados asiáticos, ao mesmo tempo em que fortalecem o eixo com a Europa.

Na avaliação da ABAG, o acordo contribui para viabilizar investimentos em corredores de exportação, terminais portuários, ferrovias e hidrovias, reduzindo custos logísticos e emissões associadas ao transporte.abag

A integração com acordos já existentes entre a UE e países como Chile amplia ainda mais essa perspectiva, ao permitir que cadeias produtivas regionais se conectem a mercados globais com menos barreiras e maior previsibilidade.ifz

Desafios, críticas e a disputa em torno da sustentabilidade

Embora a ABAG enfatize as oportunidades, o debate em torno do acordo está longe de consenso dentro do próprio agronegócio brasileiro e sul-americano.

Entidades de produtores apontam que salvaguardas europeias, cotas limitadas e condicionalidades ambientais podem reduzir o alcance econômico do tratado em segmentos chave, transformando o pacto em abertura assimétrica ou mesmo em novo instrumento de pressão regulatória.cnnbrasil

No campo ambiental e social, organizações e centros de pesquisa alertam para o risco de que a ampliação do comércio de commodities associadas à conversão de ecossistemas – como carne e soja – reforce padrões concentradores de terra e renda, sem necessariamente melhorar a segurança alimentar interna nos países do Mercosul.

O Instituto Fome Zero, por exemplo, questiona se o acordo resultará em sistemas agroalimentares mais resilientes e inclusivos ou se aprofundará desigualdades e pressões sobre biomas sensíveis.

A ABAG responde a esse tipo de crítica afirmando que a agenda de segurança alimentar mundial é compatível com a agenda climática e ambiental, desde que se reconheça a produtividade da agricultura tropical e o papel dos mercados na remuneração de práticas mais sustentáveis.

A entidade vê no acordo uma oportunidade de demonstrar, com dados e rastreabilidade, que é possível expandir produção com baixa emissão, preservação de florestas e inclusão de diferentes perfis de produtores nas cadeias globais.abag

A efetividade desse desenho dependerá, em grande medida, da implementação prática de mecanismos de monitoramento, da coordenação regulatória entre UE e Mercosul e da capacidade de governos e setor privado de evitarem tanto o protecionismo disfarçado quanto a flexibilização oportunista de normas ambientais.sna

Reconfiguração institucional e perspectivas para o agronegócio

Do ponto de vista institucional, a ABAG vê no acordo um marco para o reforço de regras multilaterais em um momento de avanço de medidas unilaterais e barreiras não tarifárias.

Ao ancorar a relação entre os blocos em compromissos negociados, mecanismos de solução de controvérsias e capítulos específicos sobre desenvolvimento sustentável, o tratado é interpretado como contraponto a um cenário de insegurança jurídica e fragmentação regulatória.abag

Para o agronegócio brasileiro, o pacto não significa um passe automático para expansão de exportações, mas um novo patamar de exigências e oportunidades. Setores como proteínas animais, milho, etanol, frutas e produtos de maior valor agregado terão de adaptar-se a cotas, regras ambientais, padrões sanitários e sistemas de rastreabilidade mais rigorosos.

Em contrapartida, ganham acesso a um mercado de alto poder aquisitivo, sensível a atributos de qualidade, bem-estar animal, clima e sustentabilidade.cnnbrasil

Na leitura da ABAG, o saldo tende a ser positivo quando se considera o conjunto: maior segurança alimentar para a UE, maior segurança de demanda e investimentos para o Mercosul, reforço da transição energética via bioeconomia e consolidação de um arcabouço de cooperação em sustentabilidade que pode servir de referência para outros acordos.

O desafio, daqui em diante, será transformar o texto negociado em resultados concretos no campo, nas indústrias e nos corredores logísticos, de modo a comprovar que comércio, clima e segurança alimentar podem, de fato, caminhar na mesma direção.agenciabrasil.ebc

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Beatriz Lima

Beatriz Lima é desenvolvedora e analista, focada em traçar a linha entre código e segurança. Com grande experiência em Software, ela se aprofunda nos avanços da Inteligência Artificial e nas melhores práticas de Segurança Cibernética para o cotidiano.