Microsoft anuncia demissões globais; Xbox entre áreas mais afetadas

Microsoft anuncia demissões globais; Xbox entre áreas mais afetadas

Embora a empresa não tenha confirmado oficialmente esse novo plano, o cenário se encaixa em uma trajetória recente marcada por cortes sucessivos, reestruturações e uma guinada estratégica rumo a investimentos agressivos em inteligência artificial e infraestrutura em nuvem.

Em 2025, a Microsoft já havia eliminado mais de 20 mil vagas em diferentes ondas de demissão, somando mais de 15 mil cortes ao longo do ano, além das reduções específicas na divisão de jogos iniciadas ainda em 2024.

A perspectiva de que o Xbox volte a ser um dos segmentos mais impactados não surge no vácuo. Nos últimos dois anos fiscais, a área de gaming da Microsoft atravessou um ciclo de enxugamento que incluiu cortes nas equipes da Activision Blizzard, ZeniMax e estúdios internos, cancelamento de projetos e fechamento de estúdios inteiros.

Em janeiro de 2024, pouco após a conclusão da aquisição da Activision Blizzard por US$ 68,7 bilhões, a empresa anunciou a demissão de cerca de 1.900 funcionários ligados às operações de jogos — aproximadamente 8,6% de uma força de 22 mil empregados em gaming. Em setembro do mesmo ano, mais 650 profissionais foram desligados da divisão, em um processo descrito como parte da integração e eliminação de sobreposições após o megadeal.

Esse movimento se intensificou em 2025. Em julho, a Microsoft comunicou um novo corte de até 9.000 funcionários, equivalente a cerca de 4% de seu quadro global, em uma rodada de ajustes que atingiu diversas áreas, mas que, segundo reportagens, impactou de maneira particularmente dura a divisão Xbox.

Estúdios foram fechados, projetos foram cancelados e equipes inteiras foram redirecionadas ou enxugadas, enquanto o discurso oficial enfatizava a necessidade de alinhar a estrutura de custos às prioridades estratégicas de longo prazo e eliminar camadas de gestão consideradas redundantes.

A sucessão de cortes na área de jogos reflete não apenas a pressão por sinergias após a aquisição da Activision Blizzard, mas também uma mudança de eixo na estratégia da Microsoft para o Xbox. Em vez de priorizar a corrida direta no mercado de consoles, a empresa vem deslocando o foco para serviços, nuvem e modelos multiplataforma. Dados de mercado mostram que o Xbox vem ficando para trás na disputa de hardware.

Em 2025, as vendas combinadas de Xbox Series X e Series S giraram em torno de 1,7 milhão de unidades, performance considerada fraca diante dos resultados do PlayStation 5 e do Nintendo Switch 2, ambos na casa de dezenas de milhões de consoles vendidos ao longo do mesmo período. A fraqueza no hardware se refletiu nas finanças: no primeiro trimestre do ano fiscal de 2026, a receita da divisão de games caiu 2%, com queda de 29% nas vendas de hardware Xbox.

A resposta da companhia tem sido dupla: de um lado, cortes de custos e reestruturações profundas; de outro, uma tentativa de reposicionar o Xbox como um ecossistema mais amplo, menos dependente do console. O CEO de Microsoft Gaming, Phil Spencer, vem reiterando que o objetivo não é mais “superar Sony ou Nintendo em consoles”, mas ampliar o alcance dos jogos em múltiplas plataformas, do PC às TVs conectadas, passando por dispositivos móveis e jogos em nuvem.

Satya Nadella, CEO da Microsoft, reforçou essa visão ao defender um modelo em que o Xbox esteja “em todos os lugares”, baseado em uma próxima geração de hardware mais próxima de um PC, com sistema mais aberto e maior integração com a nuvem.

Essa mudança estratégica vem acompanhada de uma revisão do conceito de exclusividade. Jogos antes restritos ao Xbox começaram a chegar a plataformas concorrentes, inclusive o próximo título da franquia “Halo”, previsto também para o PlayStation 5. Para Sarah Bond, presidente da divisão Xbox, a ideia de exclusivos como pilar central de competitividade estaria se tornando ultrapassada; a prioridade passaria a ser alcance e engajamento, independentemente do dispositivo.

Essa guinada, porém, provoca tensões internas: ao mesmo tempo em que amplia o potencial de receita com serviços como o Game Pass, pressionando por margens mais robustas, impõe revisões nas estruturas de estúdios, marketing, suporte e gestão — setores historicamente mais vulneráveis em ciclos de corte.

O pano de fundo financeiro ajuda a explicar por que as demissões podem voltar com força em 2026. A Microsoft vem registrando lucros expressivos, com resultados recentes somando quase US$ 75 bilhões em lucro líquido em poucos trimestres. Apesar disso, a orientação tem sido de priorizar eficiência operacional e realocação de capital para IA e nuvem.

No primeiro trimestre do ano fiscal de 2026, o investimento em gastos de capital (capex) atingiu US$ 34,9 bilhões, com expectativa de ultrapassar US$ 80 bilhões no acumulado do ano — acima do patamar de 2025. A maior parte desse montante é destinada à expansão de data centers, compra de chips e desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial.

Analistas avaliam que a companhia estaria deslocando recursos da folha de pagamento para ativos considerados estratégicos no longo prazo, especialmente infraestruturas críticas para IA generativa e serviços em nuvem. Essa escolha tende a pressionar principalmente áreas classificadas como “produtos legados” e níveis intermediários de gestão, ao mesmo tempo em que protege funções ligadas a pesquisa em IA e operações centrais de nuvem.

Em termos práticos, isso significa que divisões como Azure e Xbox passam por um pente-fino para identificar posições vistas como redundantes ou de menor aderência às novas prioridades, ainda que segmentos específicos dessas mesmas divisões — como equipes diretamente conectadas à IA ou a serviços de alto crescimento — continuem recebendo investimentos.

No caso da divisão de jogos, a necessidade de “estruturas de custo sustentáveis” é um mantra repetido em comunicados internos. Em mais de um memorando a funcionários, Spencer mencionou o objetivo de “posicionar Gaming para o sucesso duradouro” e alinhar a área às metas mais amplas de simplificação de camadas de gestão, ganho de agilidade e foco em “áreas estratégicas de crescimento”.

Em janeiro de 2024, ao justificar o corte de 1.900 postos na divisão de gaming, o executivo vinculou explicitamente o movimento ao processo de integração da Activision Blizzard e à necessidade de identificar sobreposições e redefinir prioridades. A mensagem se repetiu em julho de 2025, quando, em meio a mais uma leva de demissões, Spencer enfatizou que “plataforma, hardware e roadmap de jogos nunca estiveram tão fortes”, ao mesmo tempo em que anunciava o desligamento de milhares de funcionários.

Esse contraste entre recordes financeiros, discursos otimistas sobre o futuro do Xbox e demissões em grande escala alimenta críticas de reguladores e da comunidade gamer. Em 2025, enquanto a Microsoft elevava preços do Game Pass e aprofundava cortes na área de jogos, uma ex-presidente da Federal Trade Commission (FTC), órgão antitruste dos Estados Unidos, afirmou que a compra da Activision Blizzard estaria “prejudicando jogadores e desenvolvedores”, numa alusão aos efeitos combinados de concentração de mercado e enxugamento de equipes.

Entre jogadores, o vazamento de e-mails internos de Spencer, enfatizando a boa fase do Xbox pouco antes de anunciar demissões, foi visto como insensível, reforçando a percepção de que os ajustes estariam mais ligados à preservação de margens e bônus de gestão do que à sobrevivência do negócio.

No horizonte imediato, a leitura predominante no mercado é que uma nova onda de cortes em 2026 faria parte da mesma lógica: consolidação de ganhos em IA, foco em negócios escaláveis em nuvem e reposicionamento do Xbox como serviço multiplataforma, mesmo ao custo de retração em frentes consideradas tradicionais, como consoles e grandes equipes internas de desenvolvimento.

Relatos apontam que as demissões planejadas para a terceira semana de janeiro atingiriam “todas as regiões e múltiplos níveis hierárquicos”, com destaque para times de Azure, Xbox e vendas globais — exatamente as áreas em que a companhia busca ao mesmo tempo reduzir despesas e acelerar a migração para modelos mais enxutos, automatizados e integrados por IA.

Para o ecossistema Xbox, esse cenário traz implicações diretas. Estúdios que não se alinham de forma clara às prioridades — como projetos de alto custo e baixa previsibilidade de retorno ou iniciativas consideradas duplicadas após aquisições — tendem a ficar sob escrutínio. Em 2025, o fechamento do estúdio The Initiative e o cancelamento do reboot de “Perfect Dark” se tornaram símbolos de uma abordagem mais dura em relação a projetos de grande porte com cronogramas problemáticos ou resultados incertos.

Rare e ZeniMax também foram impactadas, com cancelamentos de títulos como “Everwild” e o encerramento de projetos internos como “Project Blackbird”. Mesmo estúdios de peso, como a Turn 10 Studios, passaram a atuar como equipes de suporte para outras franquias, em vez de liderar novos desenvolvimentos de forma autônoma.

Ao mesmo tempo, serviços como o Game Pass seguem no centro da estratégia. O programa alcançou cerca de 34 milhões de usuários em 2024, gerando quase US$ 5 bilhões em receita no último ano fiscal, enquanto as horas de jogo em nuvem cresceram 45% em um ano, com expansão para 30 países.

Esses números servem de argumento para a manutenção de investimentos em títulos com forte apelo em catálogo, parcerias para disponibilizar grandes franquias em múltiplas plataformas e modelos de assinatura que, inclusive, começam a testar variações com publicidade embutida. Entretanto, o aumento de preço do plano Ultimate e a percepção de que o portfólio perde diversidade com cancelamentos e demissões geram um equilíbrio delicado entre rentabilidade e satisfação de jogadores.

Se confirmadas, as novas demissões globais em 2026 devem aprofundar essa reconfiguração do papel do Xbox dentro da Microsoft. A divisão, que já convive com desempenho inferior ao de rivais no mercado de consoles e com pressão para elevar margens após uma das maiores aquisições da história da indústria de games, entra em uma fase em que eficiência operacional passa a ser tão ou mais determinante que ambição criativa.

Ao privilegiar IA, nuvem e serviços recorrentes como eixo central, a companhia sinaliza que o futuro do Xbox estará menos ligado ao número de consoles vendidos e mais à capacidade de manter jogadores conectados a um ecossistema de assinaturas, jogos em nuvem e conteúdos distribuídos em múltiplas plataformas — mesmo que o custo dessa transição seja medido em milhares de empregos, reorganizações profundas e uma nova onda de insegurança entre desenvolvedores, funcionários e comunidades que historicamente acompanharam a marca.

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Gabriela Sampaio

Gabriela Sampaio é Editora-Chefe e uma profissional dedicada, com mais de 8 anos acompanhando de perto o cenário macro da tecnologia. Sua missão é decifrar as grandes tendências de Notícias, Inovação e Ciência que estão redefinindo o futuro.