Paraíba inaugura Centro Internacional de Computação Quântica

Paraíba inaugura Centro Internacional de Computação Quântica

A Paraíba consolidou sua posição como protagonista na fronteira tecnológica brasileira ao lançar o primeiro Centro Internacional de Computação Quântica do país.

O projeto, apresentado na última terça-feira (30 de dezembro), marca um ponto de inflexão na história científica regional e nacional, posicionando o Nordeste no mapa global da computação quântica — uma das tecnologias mais avançadas do mundo contemporâneo.

A iniciativa representa muito mais do que um equipamento de pesquisa de última geração. Trata-se de uma aposta estratégica em soberania tecnológica brasileira, com investimento de aproximadamente R$ 80 milhões provenientes de parceria entre o Governo da Paraíba e o Governo Federal, por meio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

A cooperação internacional envolvida no projeto — estabelecida com a empresa chinesa CETC, responsável pela transferência de tecnologia — exemplifica como a pesquisa científica de ponta transcende fronteiras políticas em busca de avanços globais.

A decisão de instalar o equipamento na Paraíba consolida uma tradição de pioneirismo científico que remonta ao século XX. Em 1968, a região paraibana recebeu o computador mainframe IBM 1130 em Campina Grande, tornando-se referência tecnológica no Nordeste.

Mais de meio século depois, a escolha do estado reflete uma trajetória consolidada em pesquisa, inovação e formação científica.

Os Fundamentos da Computação Quântica

Diferentemente dos computadores convencionais, que operam com lógica binária (bits representando 0 ou 1), os computadores quânticos trabalham com qubits — unidades de informação capazes de representar simultaneamente 0 e 1.

Essa propriedade, conhecida como sobreposição quântica, possibilita processamento de volumes massivos de dados em velocidades exponencialmente superiores às das máquinas tradicionais.

Na prática, isso significa resolver em minutos problemas que demandariam anos de processamento em computadores tradicionais.

A tecnologia não se destina às tarefas cotidianas como abrir e-mails ou editar textos, mas à elaboração de pesquisas avançadas em setores estratégicos da economia e da ciência.

O Projeto em Detalhes

O centro paraibano, informalmente conhecido como CIQUANTA-PB, receberá um computador quântico supercondutor com estrutura de aproximadamente 64 metros quadrados.

O equipamento será equipado com acesso à Plataforma de Computação Quântica Tiangong, desenvolvida na China, que oferece infraestrutura quântica em nuvem (QaaS — Quantum as a Service). Essa plataforma permite a qualquer pesquisador programar, simular e testar algoritmos quânticos utilizando ferramentas abertas como Cirq, Qiskit e OpenQASM.

A implantação segue cronograma que prevê chegada de equipamentos já no primeiro semestre de 2026, acompanhada de transferência de tecnologia e capacitação de pessoal especializado.

O centro contará com infraestrutura voltada à visitação e divulgação científica, impulsionando o chamado turismo tecnológico e educativo no estado, além de gerar empregos qualificados e atrair pesquisadores de outras regiões.

Aplicações Estratégicas e Impacto Setorial

As potenciais aplicações do centro abrangem campos críticos para o desenvolvimento nacional. Na área de saúde e medicina, o equipamento permitirá simulação molecular para desenvolvimento de novos medicamentos e diagnósticos mais precisos.

Cálculos que são impossíveis para computadores tradicionais — como a modelagem de interações moleculares complexas — tornam-se viáveis através da computação quântica, acelerando significativamente a pesquisa farmacêutica.

Para a indústria e logística, a tecnologia viabilizará otimização de processos produtivos e cadeias de suprimentos em escala nunca antes possível.

Na agricultura, prevê-se análise avançada de dados climáticos e genéticos para aumento da produtividade. O setor de segurança digital e bancário beneficiar-se-á do desenvolvimento de novos padrões de criptografia mais robustos.

A pesquisa científica fundamental também será transformada. O computador quântico permitirá modelagem de cenários complexos, incluindo mudanças climáticas, além de processamento de dados do radiotelescópio Bingo, instalado no município de Aguiar, no Alto Sertão paraibano.

O Bingo, o maior radiotelescópio da América Latina, captará ondas de rádio emitidas pelo hidrogênio neutro no espaço profundo, permitindo estudos sobre matéria escura e energia escura — fenômenos que representam a maior parte da composição do universo, mas ainda são pouco compreendidos.

Transferência de Tecnologia e Desenvolvimento Endógeno

Um diferencial estratégico do projeto reside em sua estrutura de transferência de tecnologia.

O vice-presidente da CETC-IQC, Xu Hai, destacou que o objetivo é capacitar a Paraíba a desenvolver seus próprios computadores quânticos — algo que não é comum nas cooperações internacionais envolvendo tecnologias críticas.

Essa vertente representa mudança paradigmática na relação entre estados brasileiros e parceiros externos. Ao invés de simplesmente adquirir equipamento, a Paraíba constrói capacidade endógena de pesquisa e desenvolvimento, criando ecossistema que pode evoluir para inovação independente.

O secretário estadual de Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior, Claudio Furtado, descreveu as três vertentes do projeto: desenvolvimento de cálculos em áreas que hoje só são possíveis através de computadores quânticos; transferência de tecnologia permitindo desenvolvimento de máquinas próprias; e criação de centro de formação de recursos humanos com visitação de pesquisadores internacionais.

Implicações para Soberania Tecnológica

O secretário Daniel Almeida Filho, representando o MCTI, reforçou que a iniciativa fortalece a soberania tecnológica brasileira e cria bases para avanços em áreas sensíveis e estratégicas.

Em contexto global onde a China lidera investimentos em tecnologias quânticas com mais de US$ 15 bilhões destinados ao setor, incluindo rede quântica de 4.600 km conectando cidades-chave por fibra óptica e satélite, a decisão brasileira adquire dimensão estratégica clara.

A segurança cibernética representa preocupação central neste contexto. Equipamentos quânticos podem decifrar sistemas criptográficos convencionais em segundos, mudando completamente o cenário da defesa digital global.

Dominar a tecnologia, portanto, não é mera vantagem competitiva, mas questão de segurança nacional.

Ecossistema de Pesquisa em Expansão

O projeto no Nordeste insere-se em movimento mais amplo de fortalecimento da pesquisa quântica brasileira. Já operam no país redes quânticas metropolitanas em fases avançadas de desenvolvimento.

A Rede Rio Quântica, em operação desde 2021, interliga laboratórios de óptica quântica em instituições como PUC-Rio, UFRJ, IME e CBPF, investindo em desenvolvimento de protocolos de distribuição de chaves criptográficas quânticas.

Em Recife, a Rede Quântica Recife conecta por fibra óptica departamentos da UFPE e UFRPE, com expansão prevista para futuro Instituto Quanta.

Este Instituto, instalado no Parque Tecnológico da UFPE no Edifício Celso Furtado (antiga Sudene), receberá investimento de R$ 15 milhões da Finep para desenvolver computador quântico fotônico de 10 qubits e memória atômica.

Em São Carlos, desenvolve-se rede quântica metropolitana conectando UFSCar, IFSC-USP e Centro Wernher von Braun, com foco em criptografia quântica.

A UFPE também sedia um Núcleo de Tecnologias Quânticas, congregando 17 professores de diversos departamentos em busca de avanços multidisciplinares.

Perspectivas de Desenvolvimento Regional

A instalação do centro em João Pessoa oferece oportunidade inédita de reposicionamento competitivo do Nordeste no mapa tecnológico nacional. Historicamente, a região concentrou-se em setores tradicionais, enfrentando desafios econômicos estruturais.

Projetos como o Centro de Computação Quântica, aliados a iniciativas complementares como o Bingo e o Instituto Quanta, sinalizam transição deliberada em direção a economia do conhecimento e inovação tecnológica.

O impacto esperado transcende números de investimento. A atração de pesquisadores especializados, a formação de mão de obra qualificada, a possibilidade de parcerias com instituições internacionais e o desenvolvimento de spin-offs tecnológicos podem catalisar transformação socioeconômica regional.

Além disso, o turismo científico e educativo gerado pela infraestrutura contribui para diversificação da economia local.

Conclusão

O lançamento do Centro Internacional de Computação Quântica marca ruptura histórica na trajetória tecnológica do Brasil. Não representa meramente importação de tecnologia estrangeira, mas estabelecimento de capacidade nacional em área crítica que definirá competitividade nas próximas décadas.

A escolha de localização na Paraíba, fundamentada em tradição de excelência científica, consolida o Nordeste como protagonista da inovação brasileira.

A computação quântica ainda se encontra em estágio inicial de desenvolvimento global, o que coloca Brasil e Paraíba em posição privilegiada de aprendizado simultâneo com líderes mundiais.

Os próximos anos demonstrarão se a aposta em soberania tecnológica e transferência de conhecimento se traduzirá em vantagens competitivas duráveis, não apenas para a região, mas para toda a nação.

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Rafael Santos

Rafael Santos é o especialista em desempacotar o mundo dos dispositivos. Com uma paixão por Hardware, montagem de PCs e otimização de Redes, ele oferece análises aprofundadas em Reviews, Conectividade (Internet) e no universo de Games.