A Starlink, serviço de internet via satélite da SpaceX, vem promovendo transformações profundas no mercado global de telecomunicações com o lançamento do Direct to Cell (D2C), tecnologia que permite conexão direta entre smartphones e satélites em órbita baixa, sem necessidade de antenas parabólicas ou equipamentos adicionais.
Essa inovação levanta questionamentos sobre o futuro das operadoras tradicionais de telefonia móvel, embora a realidade aponte para um cenário mais complexo do que a simples substituição.
Tecnologia Direct to Cell e expansão global
O sistema D2C utiliza aproximadamente 650 satélites equipados com modems eNodeB integrados, que funcionam como torres de celular no espaço, orbitando a cerca de 550 km de altitude.
A tecnologia opera em bandas LTE padrão e é compatível com smartphones convencionais que possuam modems CAT-1, CAT-1 Bis ou CAT-4 com versão 10 ou superior do 3GPP. Os satélites conectam-se entre si por lasers e comunicam-se com estações terrestres das operadoras parceiras, criando uma rede híbrida terrestre-espacial.youtube
O serviço já está operacional em menos de dez países, incluindo Estados Unidos, Canadá, Japão, Austrália, Nova Zelândia, Suíça e, na América Latina, Chile e Peru.
No Chile, a Starlink estabeleceu parceria com a operadora Entel, disponibilizando conexão D2C para clientes com planos de 150 GB e 450 GB, a partir de 12.990 pesos mensais (cerca de R$ 74,70). No Peru, o serviço foi lançado em dezembro de 2024, também através da Entel, marcando o país como sétimo globalmente a ativar a tecnologia.youtube
Limitações e funcionalidades restritas
A tecnologia D2C, em sua fase inicial, apresenta limitações significativas. No Chile e Peru, apenas mensagens de texto (SMS) estão disponíveis, sem acesso a dados móveis, chamadas de voz ou aplicativos como WhatsApp e Instagram.
A Starlink promete adicionar dados móveis, chamadas de voz e serviços de Internet das Coisas (IoT) ao longo de 2025, mas sem cronograma definitivo.youtube
Testes nos Estados Unidos com a T-Mobile demonstraram velocidades limitadas a 4 Mbps para funções básicas, com desempenho de download de 17 Mbps em condições ideais.
Essas velocidades contrastam drasticamente com os 220 Mbps oferecidos pelo serviço residencial padrão da Starlink via antena. Além disso, o serviço exige visão direta do céu, não funcionando adequadamente dentro de edifícios ou em áreas arborizadas.youtube
Analistas do BTG Pactual avaliam que o D2C não representa ameaça imediata às operadoras móveis tradicionais, caracterizando-o como serviço complementar para áreas remotas onde a infraestrutura terrestre não alcança.
A Starlink reconhece publicamente que a tecnologia não substitui redes terrestres, mas complementa a cobertura em regiões sem torres de celular.youtube
Modelo de parceria com operadoras
Contrariando expectativas de confronto direto, a Starlink opera através de parcerias com operadoras locais.
Nos Estados Unidos, a T-Mobile oferece 59 modelos de smartphones compatíveis, enquanto no Canadá a Rogers, na Austrália a Optus e Telstra, e na Nova Zelândia a One NZ firmaram acordos similares. Os usuários necessitam de chip (ou eSIM) vinculado à operadora parceira para acessar o serviço.
Especialista da BTG explica que essa dependência de parcerias protege operadoras tradicionais no curto prazo, embora alerta para possível mudança estratégica futura.
A Starlink poderia, teoricamente, solicitar licenças para operar como Operadora Móvel Virtual (MVNO) ou mesmo como operadora plena, utilizando as redes terrestres apenas para roaming quando necessário.
Situação regulatória no Brasil
No Brasil, a Starlink possui duas licenças fundamentais: SMGS (Serviço Móvel Global por Satélite) e SCM (Serviço de Comunicação Multimídia), que a habilitam legalmente a oferecer voz, mensagens e banda larga.
Em abril de 2025, a Anatel autorizou a operação de 7.500 satélites de segunda geração equipados com miniantenas para comunicação móvel, somando-se aos 4.408 satélites já autorizados desde 2022.
Novas regras da Anatel, vigentes desde 28 de outubro de 2024, simplificaram o enquadramento regulatório ao unificar as licenças SGS e SMP (Serviço Móvel Pessoal), permitindo que operadoras de satélite ofereçam internet e voz em um único plano.
Essa mudança regulatória facilita tecnicamente o caminho para o D2C no Brasil, embora a Starlink ainda precise solicitar autorizações específicas e cumprir requisitos técnicos adicionais.
A Anatel esclareceu em agosto de 2025 que a Starlink não possui outorga para serviço móvel direto no Brasil e precisaria ingressar no ambiente regulatório de testes (sandbox) para desenvolver a tecnologia.
Até dezembro de 2024, nenhuma operadora brasileira havia solicitado licença experimental para o modelo D2C.
Interesse das operadoras brasileiras
A TIM foi a primeira das três principais operadoras nacionais a formalizar parceria com a Starlink, anunciando em julho de 2025 acordo para conexão via satélite de escolas rurais nos estados do Espírito Santo, Paraná, Rio de Janeiro e Santa Catarina, totalizando 1.800 instituições educacionais.
Esse acordo visa cumprir obrigações do leilão de 4G de 2012, que exigiu conexão de escolas públicas em áreas até 30 km das sedes municipais.youtube
Tanto Claro quanto Vivo manifestaram interesse na tecnologia satelital. A Claro já estabeleceu parceria com a Starlink na Colômbia para serviços empresariais.
Especialistas apontam que operadoras podem se beneficiar da Starlink para expandir cobertura em áreas rurais e cumprir obrigações regulatórias do 5G.
Crescimento da Starlink no mercado brasileiro
A Starlink experimentou expansão meteórica no Brasil. Em janeiro de 2023, detinha 4,7% do mercado de internet via satélite como quinta colocada.
Em julho de 2024, alcançou liderança com 45,9% de participação, chegando a 493 mil clientes em outubro de 2024 e 323 mil em dezembro, crescimento de 145% no ano.
A região Norte concentra a maior base de clientes, com destaque para Boa Vista (Roraima), cidade com maior número de assinantes da Starlink no Brasil.
Aproximadamente um terço dos clientes encontra-se na região Norte, refletindo a estratégia de atender áreas sem infraestrutura terrestre adequada.
Os planos residenciais da Starlink no Brasil custam R$ 236 mensais, além de kit de antena de R$ 2.400. O plano de viagem ilimitado alcança R$ 576 mensais.
Comparativamente, operadoras tradicionais oferecem planos de fibra óptica com velocidades superiores a preços mais acessíveis: a Vivo cobra R$ 120 mensais por 500 Mbps, enquanto a Starlink promete até 220 Mbps.
Barreiras técnicas e econômicas
Analistas do BTG Pactual identificam limitações estruturais que impedem a Starlink de competir frontalmente com operadoras em áreas urbanas.
O serviço ainda não consegue disputar mercado onde existem alternativas de fibra óptica ou cabo, restringindo-se a nicho de regiões remotas.
A capacidade de banda dos satélites representa desafio crítico. Nos Estados Unidos, a Starlink já cobra taxa de congestionamento de US$ 100 em regiões densamente povoadas, reconhecendo problemas para entregar velocidade em áreas urbanas populosas.
A empresa admite que a expansão de capacidade depende do lançamento de mais satélites.
Especialistas apontam que a tecnologia D2C enfrenta limitações físicas fundamentais: os satélites não podem ser densificados como torres terrestres, impedindo que ofereçam capacidade equivalente em áreas urbanas.
A Starlink confirmou que o D2C não substituirá redes terrestres, funcionando como complemento em zonas sem cobertura convencional.youtube
Concorrência no segmento Direct-to-Device
A Starlink não é a única empresa desenvolvendo tecnologia de conexão direta para celulares. A AST SpaceMobile, startup americana com investimentos de AT&T, Google e Vodafone, compete diretamente nesse mercado.
A AST utiliza satélites maiores e mais potentes, prometendo cobertura com menos unidades orbitais.
A Lynk Global representa outra concorrente, já tendo realizado chamadas de voz e SMS via satélite com smartphones convencionais. Ambas as empresas seguem modelo de parceria com operadoras, similar à estratégia da Starlink.
Analistas projetam que a AST SpaceMobile pode ter maior potencial competitivo de longo prazo por focar especificamente em conexão móvel, enquanto a Starlink divide esforços entre banda larga residencial e conectividade celular.
A competição entre múltiplos players tende a acelerar o desenvolvimento tecnológico e reduzir custos.
Impacto no mercado global de telecomunicações
Projeções do setor indicam crescimento exponencial das conexões via satélite. A consultoria OMDIA prevê que conexões IoT via satélite alcançarão 29,9 milhões até 2030, com taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 22,2%.
A Gartner estima que gastos com serviços de comunicações via satélite LEO atingirão US$ 14,8 bilhões globalmente em 2026.
O mercado de internet via satélite deve expandir para US$ 312,31 bilhões até 2035, com CAGR de 32,1% entre 2025 e 2035. Mais de 40.000 satélites estão previstos para lançamento nos próximos anos, criando cobertura sem precedentes sobre a Terra.
A Analysys Mason prevê que 2024-2025 marcam período crítico para o segmento D2D, com lançamento do 3GPP Release 18 expandindo significativamente as capacidades satelitais.
O mercado de satélites de comunicação deve adicionar US$ 15,3 bilhões em receita (crescimento de 7%) em 2024.
Perspectiva de coexistência, não substituição
Especialistas do setor convergem para cenário de coexistência entre redes satelitais e terrestres. A SES DTH considera o D2C complementar à infraestrutura terrestre, apontando o preço como principal obstáculo à massificação.
A empresa afirma que satélites não podem competir com conectividade terrestre devido a limitações técnicas fundamentais.
Executivos da indústria satelital destacam que a convergência entre diferentes órbitas (geoestacionária, média e baixa) e integração com redes terrestres define o futuro das telecomunicações.
Satélites assumem papel em conectividade crítica e áreas remotas, enquanto redes terrestres mantêm predominância em centros urbanos.
O cenário brasileiro exemplifica essa dinâmica: das 51,9 milhões de conexões de banda larga no Brasil, 74,4% utilizam fibra óptica, enquanto satélites representam apenas 0,9% do total.
Essa desproporção reflete limitações econômicas e técnicas da conectividade satelital para atender mercado de massa urbano.
Transformação digital e inclusão
A chegada da Starlink à Amazônia brasileira demonstra potencial transformador em regiões historicamente desassistidas. A empresa tornou-se o serviço de internet via satélite mais utilizado na região Norte, com 42,5% de participação em agosto de 2023.
Povos indígenas e comunidades tradicionais celebram vantagens da tecnologia que oferece conexão estável onde serviços terrestres não alcançam.
Iniciativas como o projeto Conexão Povos da Floresta pretendem levar banda larga via Starlink a 5.000 aldeias e comunidades isoladas até novembro de 2025.
Especialistas alertam, contudo, para riscos de concentração de mercado e dependência de único player sem concorrentes efetivos.
Aproximadamente 20 milhões de brasileiros vivem em áreas sem acesso à internet. Tecnologias satelitais representam caminho para reduzir essa exclusão digital, embora custos elevados limitem a universalização.
A mensalidade de R$ 236 da Starlink permanece cara para a maioria dos consumidores brasileiros, especialmente em regiões de baixa renda.
Regulamentação e soberania digital
A Anatel emitiu alerta regulatório em abril de 2025 ao aprovar ampliação dos satélites Starlink, destacando riscos nos domínios concorrencial, de sustentabilidade espacial e de soberania digital não endereçados na regulamentação atual.
O órgão reconhece limitações do marco normativo vigente para responder adequadamente às complexas questões emergentes do setor satelital.
A Telebras, estatal brasileira, vem estabelecendo parcerias com concorrentes da Starlink, incluindo SES (Luxemburgo), Hispasat (Espanha) e Spacesail (China), buscando modelo de conectividade soberano e diversificado.
Essas iniciativas refletem preocupação governamental com dependência excessiva de único fornecedor estrangeiro.
A entrada da Starlink no segmento móvel cria nova camada competitiva, forçando operadoras a conviverem com modelo híbrido onde parte da cobertura deixa de depender exclusivamente de torres terrestres.
Reguladores de toda América Latina observam experiências do Chile e Peru para definir estratégias regulatórias futuras.
A revolução prometida pela Starlink no mercado de telecomunicações móveis encontra-se em estágio embrionário, com funcionalidades limitadas a SMS e velocidades restritas. O modelo de negócios baseado em parcerias com operadoras tradicionais, custos elevados e limitações técnicas fundamentais indicam que o D2C não eliminará operadoras convencionais no horizonte previsível.
A tecnologia estabelece-se como complemento valioso para conectividade em áreas remotas, mas não como substituto das redes terrestres urbanas que atendem a vasta maioria da população global.

